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sábado, 10 de agosto de 2013

Conversando com Massimo Pigliucci

O biólogo e filósofo ítalo-americano Massimo Pigliucci é um sujeito de múltiplos interesses. Professor na City University of New York, Pigliucci realiza pesquisas e escreve sobre genética, biologia evolutiva e filosofia da ciência e, além da carreira acadêmica, escreve para o público geral em seu blog, Rationally Speaking, e em sua página na internet, Plato’s Footnote (uma fonte riquíssima em recursos – há artigos, palestras e textos do autor disponíveis para download). Pigliucci é também autor de excelentes livros sobre ciência e filosofia, entre os quais Answers for Aristotle: how science and philosphy can lead us to a more meaningful life, Denying evolution: creationism, scientism, and the nature of science, Tales of the rational: skeptical essays about nature and science, e Nonsense on stilts: how to tell science from the bunk (nenhuma das obras foi publicada no Brasil). O autor, que é também um grande defensor da educação científica contra a superstição e as pseudociências, gentilmente aceitou o convite do blog para falar sobre alguns temas comumente presentes em seus escritos.

Página Virada: O que você está lendo agora?
Massimo Pigliucci: Hitler’s Philosophers, de Yvonne Sherratt (obra ainda não lançada no Brasil), um olhar fascinante a respeito de como os nazistas faziam mau uso da filosofia (por exemplo, de Kant e Nietzsche), mas também sobre como filósofos estavam explicitamente envolvidos com a máquina de propaganda nazista (p. ex., Heidegger). Há muitas boas lições, tanto de história quanto do papel da filosofia, para serem aprendidas neste livro.

PV: Que livros o influenciaram?
MP: Muitos, certamente. Mas acima da maioria estão a Autobiografia de Bertrand Russell, que me introduziu à filosofia quando eu era um adolescente; O Mundo Assombrado Pelos Demônios de Carl Sagan, ainda hoje um dos melhores trabalhos populares sobre pseudociência e pensamento crítico; Investigação Sobre o Entendimento Humano, de David Hume, certamente um dos melhores e mais acessíveis trabalhos de filosofia; Eutífron de Platão, um diálogo curto deliciosamente escrito sobre a relação entre religião e moralidade; Advice to a Young Scientist, de Peter Medawar (obra não lançada no Brasil), que eu li antes de ir à universidade; e um grande número de livros de Stephen Jay Gould, que foi meu modelo intelectual durante os primeiros anos de minha carreira como biólogo evolucionista.

PV: Como o ato de ler pode ser importante para a vida de alguém?
MP: E como não seria? Através da leitura, nós entramos em uma conversa com algumas das melhores mentes que a humanidade produziu através de toda a história registrada. Não há simplesmente nada semelhante a esse tipo de experiência.

PV: Pessoas como Deepak Chopra e Fritjof Capra têm escrito livros sobre ciência e espiritualidade, mas a visão deles a respeito de muitas questões difere em muito do consenso da comunidade científica em diversas áreas. Em sua opinião, o trabalho de autores como Chopra e Capra contribui para disseminar a ciência para o público, ou faz o oposto, confundindo as pessoas e criando uma falsa ideia sobre o que a ciência é?
MP: Não consigo falar coisas ruins o suficiente a respeito de Chopra. Ele é um charlatão que presta um desserviço ao público. Quanto à Capra, não posso fazer melhor que Victor Stenger, quando caracterizou o seu trabalho (e o de Chopra) como “charlatanismo quântico” (quantum quackery) na Skeptical Inquirer.

PV: Algumas pessoas acreditam que há uma razão ou um propósito para tudo o que acontece conosco, e essas razões e propósitos estão ligados a algum tipo de “desejo divino” ou a um “plano espiritual”. Muitas dessas pessoas não podem sequer conceber a ideia de que talvez não exista um deus ou uma recompensa após a morte. Se não existir um deus ou um plano espiritual, alguns deles dizem, não há razão para estarmos aqui, e nossas vidas não têm sentido. O que um filósofo tem a dizer sobre isso?
MP: Creio que essas pessoas cedem ao mais profundo tipo de orgulho: esperar que o próprio universo (ou Deus) deveria se preocupar com o que acontece com eles, senão nada tem valor! Sentido na vida – como eu argumentei em meu Answers for Aristotle (obra ainda não publicada no Brasil, e que será discutida em breve aqui no blog) – vem de dentro, não de fora. Nós construímos sentido a partir de nossos projetos de vida, incluindo nossas relações com outros seres humanos. Por que razão isso não seria suficiente?

PV: Aqui no Brasil, as pessoas frequentemente reclamam da qualidade dos políticos. Sempre lemos a respeito de corrupção, mau uso de recursos públicos, incompetência, administradores que são analfabetos, outros que trabalham para as pessoas de seus partidos políticos, e assim por diante. É possível que os eleitores enfrentem esses problemas pensando criticamente? Como?
MP: Ah, não é só no Brasil. Acredito que esse seja um esporte internacional, e infelizmente os políticos do mundo todo continuam nos dando várias razões para pensar assim. Sim, claro, a educação e o pensamento crítico são ferramentas cruciais para se navegar em um mundo complexo, incluindo o mundo da política. Infelizmente, nós raramente ensinamos o pensamento crítico, e ele não vem naturalmente aos seres humanos. O que você me pergunta é uma questão complexa, e não há uma simples resposta, mas eu aconselharia os seus leitores para que continuem lendo, ampla e criticamente, sem deixarem-se cair em um cinismo auto-destrutivo. É um balanço difícil de manter.

PV: Para aqueles que querem ler boas obras de ciência e filosofia, mas não conhecem muito bem essas áreas, que autores ou livros você recomendaria?
MP: Bem, praticamente os mesmos que eu mencionei na resposta à sua primeira questão, creio. Nós vivemos em uma época em que bons livros a respeito de todo o tipo de assunto estão disponíveis ao pressionar de uma tecla (pelo menos para aqueles de nós que são sortudos o suficiente para serem alfabetizados, terem um conexão com a internet e dinheiro suficiente para investir – o que deixa a maior parte da população mundial de fora!). Então, que usemos essa sorte e a espalhemos: maior grau de instrução no mundo inteiro é um fator importante para enfrentar a pobreza, a violência e a superstição.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Conversando com Stephen Law


O inglês Stephen Law trabalhava como carteiro até que seu interesse pela filosofia o fez procurar a universidade. Hoje doutor em filosofia e professor universitário, Law é um aclamado escritor de trabalhos que trazem a filosofia ao cotidiano, popularizando a disciplina entre o grande público. Law é o autor daquele que considero o mais interessante livro de introdução à filosofia disponível no Brasil, o Guia Ilustrado Zahar de Filosofia (Jorge Zahar, 2008). Outra obra de destaque do autor, e que também pode ser encontrada nas livrarias brasileiras, é Os Arquivos Filosóficos (Martins Fontes, 2010), um livro voltado para o público jovem – mas ótimo para qualquer pessoa que goste de filosofia e não tenha muita intimidade com seus temas – que trata daquilo que Law chama de “grandes questões”, como a ética envolvida na nossa alimentação, a distinção entre o que é real e o que não é, e a existência de Deus, entre outros.
   Entrei em contato com o autor para saber suas opiniões a respeito dos livros e de leitura. Law aceitou o convite do blog, e suas instigantes reflexões se encontram abaixo.

Página Virada: O que você está lendo agora?
Stephen Law: Não leio um trabalho de ficção há anos. Eu tendo a ler livros de filosofia. Atualmente, estou lendo o último livro de Richard Carrier, Proving History: Bayes Theorem and the quest for the historical Jesus (obs: obra não publicada no Brasil).

PV: Que livros o influenciaram?
SL: Entre os livros que não são de filosofia, eu diria que O Terceiro Tira, de Flann O’Brien (L&PM, 2006) está no topo da lista. É uma imagem surreal e assustadora do inferno, com muitas reviravoltas estranhas no enredo. Todos os nomes dos personagens de meu livro The Phylosophy Gym (obs: obra não publicada no Brasil) foram tiradas desse romance.

PV: Por que você considera que é importante ler?
SL: Você assume que eu penso que é importante ler. Eu realmente penso que a leitura de obras de ficção é um tanto superestimada, como é a própria ficção. Ela pode ser divertida, sem dúvida. Mas autores de ficção são geralmente louvados como possuidores de grandes insights sobre a condição humana, sobre filosofia, etc. Em minha opinião, muitos deles têm pouco mais do que pose e aparência, e são vazios. O que não significa dizer que não possamos encontrar jóias entre eles, como Philip Pullman ou George Orwell. Mas a habilidade para contar uma boa história não se traduz automaticamente em habilidade filosófica ou insight.
   Frequentemente se diz que nós aprendemos muito com os romances. Mas o que aprendemos, exatamente? Que tipo de “verdade” os romances têm? Entendo que se eu ler uma história sobre um serial killer, sobre como ele se tornou um assassino, de um modo que eu possa ver que eu também poderia terminar como ele, então eu teria aprendido algo valioso. Eu também entendo que poderia ler sobre alguma preocupação que alguém tem em uma história, com a qual eu compartilhe, mas pensava ser exclusivamente minha, então eu percebo que não estou sozinho em ter tais pensamentos e sentimentos. Também entendo que eu possa ter um sentimento que considere difícil de articular, e em um romance eu encontro a perfeita expressão dele. “Sim”, eu poderia pensar, “é assim que eu me sinto”. Romances podem também nos provocar para pensar sobre coisas que de outra maneira não teríamos considerado. Essas são algumas maneiras pelas quais eu poderia aprender algo, ganhar algum insight.
   Por outro lado, romances são histórias. E histórias podem ser propaganda ideológica e política, mesmo que propaganda inconsciente. A literatura pode ser usada para contar mentiras sobre a condição humana. Um escritor habilidoso pode, ao pressionar nossos botões emocionais, nos fazer sentir simpatia por uma causa que nós deveríamos rejeitar, ou fazer algo errado parecer certo ou normal, por exemplo.
   A literatura é uma boa história com um começo, um meio e um fim, um personagem forte que se desenvolve, e assim por diante. A vida real raramente tem essas características. As pessoas raramente mudam, e quando o fazem raramente mudam da maneira que uma boa história requer. As explicações reais sobre o porquê as pessoas fazem as coisas raramente são tão dramaticamente satisfatórias e organizadas como aquelas encontradas para personagens fictícios. Quando as pessoas escrevem biografias ou relatos dramatizados de eventos da vida real, a vida real tem que ser fortemente editada e polida nas convenções da literatura para que nós possamos ter uma boa história. Ou então o autor deve procurar muito por episódios incomuns ou vidas que realmente preencham os requisitos da boa literatura.
   Assim, a literatura não é, de muitas maneiras, profundamente enganosa, nos dando a ilusão de que a vida real tem uma estrutura narrativa clara, um enredo, uma moral, é dirigida por princípios psicológicos, etc..., que são aspectos realmente raros, se é que podem estar presentes, em uma vida real?
   A “psicologia” que ela apresenta não é frequentemente mítica, ao invés de verdadeira, refletindo o que um indivíduo falível, o autor, pensa sobre o que faz as pessoas tocarem suas vidas, ao invés do que verdadeiramente as faz continuar suas vidas?
   De fato, nós somos eternamente apresentados ao mesmo estoque de enredos e personagens típicos, que funcionam como símbolos culturais para nós: “Oh, é uma história sobre uma busca, e X é um herói com defeitos, e ele aprende esse tipo de lição à medida que ele avança em sua busca...” Mesmo quando uma história se desvia desses tipos, isso não acontece precisamente por ela deliberadamente desprezar eles – por ela se revelar como um outro tipo de história, ao invés daquilo que ela inicialmente aparentava ser (o enredo com uma “virada”)?
   Outras pessoas se dirigem a figuras literárias em busca de profundidade. Fico frequentemente desapontado por aquilo que elas têm a dizer. Muito disso pode ser considerado como pseudo-profundidade. Veja o link:  http://stephenlaw.blogspot.co.uk/2011/06/pseudo-profundity-from-believing.html

PV: É possível fazer com que as pessoas leiam mais? Como se pode fazer isso?
SL: Como eu disse, a leitura de ficção pode ser uma atividade superestimada. Certamente, ler ficção é algo superestimado de muitas maneiras (o que não significa negar que isso possa ser maravilhoso – mas não vamos nos deixar levar e supor que a boa ficção seja mais do que ela realmente é).

PV: Você é um filósofo acadêmico que escreve livros para o público geral. Qual é o papel da filosofia na vida de uma pessoa comum?
SL: Nós todos somos filósofos. Nós só não percebemos isso. Espero que meus livros pelo menos façam as pessoas perceberem o quanto a filosofia está impregnada em seu sistema de crença. E parte disso é má filosofia.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Conversando com Simon Blackburn

Por Guilherme

Professor na Universidade de Cambridge e na Universidade da Carolina do Norte, o inglês Simon Blackburn é considerado uma das figuras mais importantes na filosofia contemporânea, tanto na área acadêmica quanto na popularização de temas filosóficos entre o público geral. Em suas obras, Blackburn escreve sobre ética, epistemologia, o pensamento crítico, a história da filosofia e a busca da verdade. No Brasil, estão disponíveis A República de Platão (Jorge Zahar, 2008), o Dicionário Oxford de Filosofia (Jorge Zahar, 1997) e Verdade: um guia para os perplexos (Civilização Brasileira, 2006 – escreverei sobre o livro em breve aqui no blog). Blackburn também é autor de uma interessante obra de introdução à ética (Being Good), outra de introdução à filosofia (Think: a compelling introduction to philosophy) e uma sobre as grandes questões da vida (Big Questions: philosophy, que também será tema de um post aqui no Página Virada).
Enviamos algumas perguntas a Blackburn para conhecer mais as suas ideias sobre livros e leitura. O filósofo gentilmente aceitou nosso convite e nos encaminhou suas respostas, que podem ser lidas abaixo.

Página Virada: O que você está lendo agora?
Simon Blackburn: Eu geralmente leio vários livros ao mesmo tempo. No presente momento, estou lendo os Ensaios de Montaigne, o que eu deveria ter feito há muito tempo. Eles são acalentadores, íntimos, nos fazem divagar, e são frequentemente muito divertidos. Também estou lendo, em contraste, O Talentoso Ripley, o suspense de Patricia Highsmith que foi transformado em um filme bem conhecido. Terminei recentemente Darwinian Populations, de Peter Godfrey-Smith, um livro sobre filosofia da biologia que eu apreciei bastante.

PV: Que livros o influenciaram?
SB: São muitos para mencionar! Profissionalmente, creio que eu deveria indicar Russell e Frege, os dois grandes pioneiros da lógica moderna. Depois, o Tratado de Wittgenstein, com o qual passei muito tempo lutando quando era estudante. Em meus anos de graduação eu li pela primeira vez David Hume, que provavelmente me influenciou mais do que qualquer outro autor.

PV: Por que você pensa que é importante ler?
SB: O grande negócio em relação à leitura, diferentemente de assistir a filmes ou televisão, é que você pode escolher seu próprio passo. Você pode fazer uma pausa para a reflexão, deixar sua imaginação livre, ou pensar um pouco por conta própria. Assim, um livro é o mais polido e modesto das companhias. Penso que filmes, ao contrário, são muito insistentes. Você tem que assisti-los no passo que eles ditam, e eu realmente não gosto de fazer isso. Não é somente o fato de que eu encontro mais prazer nos livros, mas eu penso que eles expandem mais a minha mente. Eles me dão espaço para respirar.

PV: É possível fazer com que as pessoas leiam mais? Como podemos fazer isso?
SB: Nós temos que comunicar o nosso prazer mais efetivamente. Ver jovens mexerem ociosamente em seus Angry Birds ou Donkey Kongs, ou qualquer coisa parecida, me deixa muito triste. É uma maneira pobre, vazia e sem sentido de passar o tempo, considerando que eles poderiam estar perdidos em companhia de Agamenon ou Aquiles, Hamlet ou Dom Quixote, ou mesmo Alice no País das Maravilhas ou Harry Potter. Não penso que importe o que a criança lê, contanto que elas assimilem a ideia de que os livros são prazerosos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Conversando com Nikki Stern

Por Guilherme

A americana Nikki Stern escreve regularmente para alguns dos principais jornais e revistas de seu país, como o The New York Times, a Newsweek e a excelente The Humanist. Seu primeiro livro, Because I Say So: the dangerous appeal of moral authority (Porque sou em quem diz isso: o perigoso apelo da autoridade moral, sem edição no Brasil), trata do perigo a que estamos expostos quando substituímos a razão pelos pensamentos falhos, sem embasamento ou vindos de falsas autoridades (nesse grupo você pode incluir celebridades, líderes "espirituais", militantes políticos, etc. etc. etc.). O segundo livro de Stern é Hope in Small Doses (Esperança em pequenas doses, sem edição brasileira), uma discussão sobre a possibilidade de alguém ter esperança e enfrentar a adversidade sem apegar-se a pensamentos mágicos.  A autora, que perdeu o marido no atentado ao World Trade Center em 11 de setembro de 2011, tirou da tragédia a inspiração para escrever as duas obras.
Entramos em contato com Nikki, que gentilmente respondeu aos nossos questionamentos sobre os seus livros preferidos, a importância da leitura e o papel do pensamento crítico na nossa vida cotidiana.

Página Virada: O que você está lendo agora?
Nikki Stern: No momento, estou lendo The Lost Memory of Skin, de Russell Banks. É um livro sobre um tema difícil – predadores sexuais – mas traz também um olhar excelente sobre o péssimo modo com que o sistema americano funciona. E é de Russell Banks, o que significa um realismo evocativo.

PV: Quais livros a influenciaram?
NS: Eu leio muito. É difícil de dizer, e pode ser mais fácil mencionar alguns autores. Kurt Vonnegut foi uma grande influência em minha mente, e também na minha escrita; Alice Hoffman (amo seu estilo sonhador); Mark Twain (estou me preparando para reler muitas de suas coisas) e, mais recentemente, Rebecca Skloot (The Immortal Life of Henrietta Lacks – obs: obra publicada no Brasil como A Vida Imortal de Henrietta Lacks, pela Companhia das Letras) porque ela faz a não-ficção e a ciência realmente interessantes de se ler.

PV: Por que você pensa que é importante ler?
NS: A leitura abre sua mente e traz o mundo até você. Ela fomenta a curiosidade e faz com que você queira conhecer mais. Enquanto você for curioso, você estará interessado na vida, não importa o quão difícil ela se torne.

PV: É possível fazer com que as pessoas leiam mais? Como podemos fazer isso?
NS: Creio que você tem que ensinar às crianças o valor e o poder não só da informação, que você pode conseguir na internet, mas das palavras. Nas mãos de um habilidoso autor ou orador, as palavras podem influenciar, iluminar, entreter e questionar. O ato de ler é fácil, de amplo acesso, é incrivelmente libertador e te dá uma vantagem sobre os não-leitores. Eu admito que não entendo as pessoas que dizem não terem tempo para ler, pois essa tem sido minha atividade preferida por quase toda a minha vida.

PV: Você escreve para a The Humanist, uma revista que lida com o livre pensamento e a racionalidade, coisas que estão se perdendo em nossa sociedade nos dias atuais. Por que você acredita ser importante encorajar o pensamento crítico?
NS: É importante que nós, humanos, reconheçamos tanto nossas forças quanto nossas limitações. Umas delas é a inabilidade para conhecer algo com absoluta certeza, especialmente quando estamos lidando com as grandes questões. Em outras palavras, quanto maior a questão (“qual é o sentido da vida” versus “o quanto de sono é bom para mim?” – essa última você provavelmente responderia com alguma segurança), menos nós podemos estar absolutamente certos de que conhecemos a resposta. A outra é que nossos cérebros algumas vezes cometem erros. Nós nos enganamos, cometemos erros cognitivos. Novamente, não somos perfeitos. Mas não há problema nisso.
        O pensamento critico ajuda você a navegar pelas toneladas de informação que chegam até você para, primeiro, priorizar, e, segundo, reexaminar e refletir. Nós automaticamente mensuramos as novas informações, especialmente aquelas que se referem a nossas crenças estabelecidas, contra essas crenças, mas isso não é bom o suficiente para dizer “sim, estou de acordo”, ou “não, não é assim”. Nós não aprendemos nada dessa maneira, e assim não crescemos ou evoluímos. Me considero uma pessoa progressista e, assim, apoio a evolução. Tenho confiança suficiente, tanto na ordem natural das coisas quanto nos humanos, para crer que a evolução humana geralmente ocorrerá em uma direção positiva. Creio em regras e limites; penso que isso ajuda a sociedade a trabalhar de modo mais coeso. Mas acredito, do fundo do coração, que as crianças deveriam ser ensinadas a pensar com cuidado e, sim, a questionar educadamente antes de aceitar algum conceito, ideia ou crença somente porque eles ouviram de seus amigos ou parentes, ou leram sobre isso na internet. O partido político no Texas que se posicionou, em sua plataforma, contra o ensino do pensamento crítico em escolas (dá para acreditar nisso?) porque ele ensina as crianças a “questionar a autoridade”, está vindo de um lugar cheio de medo e retrocesso. Ele teme a mudança e aparentemente não confia que as pessoas, mesmo as crianças, possam evoluir. Isso é triste e limitante.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Conversando com Julian Baggini

Por Guilherme

Julian Baggini é um filósofo e escritor inglês bastante conhecido por seus livros de divulgação de ideias filosóficas e por seus artigos e participações especiais em conceituados sites, rádios e jornais britânicos, como o The Guardian. Alguns de seus livros já foram publicados no Brasil, entre eles Você Pensa o Que Acha Que Pensa? – um check-up filosófico (Zahar, 2010) e Para Que Serve Tudo Isso? – a filosofia e o sentido da vida, de Platão a Monty Python (Zahar, 2008), ambos discutidos aqui no blog.
Em meio a um período de descanso, Baggini gentilmente aceitou nosso convite para falar um pouco sobre as suas leituras e sobre o sentido do ato de ler.

Página Virada – O que você está lendo agora?
Julian Baggini – Recém saí de férias, e tenho o raro luxo de começar a leitura de um livro puramente por prazer. É um romance, The Missing Shade of Blue, de Jennie Erdal. (obs: livro ainda não publicado no Brasil)

PV – Quais livros o influenciaram?
JB – São muitos para mencionar. Em termos de manutenção da minha perspectiva geral sobre a filosofia, eu diria Investigações Sobre o Entendimento Humano e Sobre os Princípios da Moral, de Hume, a Ética, de Aristóteles, e Reasons and Persons, de Derek Parfit. (obs: o livro de Parfit não foi publicado no Brasil)

PV – Por que você considera que é importante ler?
JB – Porque é importante pensar por si mesmo, mas não completamente por conta própria. Assim você precisa de informações de pessoas com maior conhecimento e insights de pessoas que são melhores pensadores.

PV – É possível fazer com que as pessoas leiam mais? Como se pode fazer isso?
JB – Você não pode fazer as pessoas lerem mais. Outros meios de mídia terão que tomar para si parte da tarefa da leitura, que é a de preencher a mente das pessoas. Não há razão para pensar que o áudio e o vídeo não poderão fazer muito do mesmo trabalho. Mas a leitura tem que manter um papel-chave: ela é mais autônoma e ativa. A única maneira efetiva de encorajar a leitura é fornecendo ótimos livros.

domingo, 3 de junho de 2012

Conversando com Michael Shermer

Por Guilherme

Recentemente, falei aqui de Por Que As Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas (JSN Editora, 2011), famoso livro de Michael Shermer sobre como caímos facilmente nas falácias das pseudociências. Shermer escreve para a Scientific American, onde mantém uma coluna sobre ceticismo, é fundador e editor da revista Skeptic, publicou vários livros sobre ciência para o público leigo no assunto e tem uma titulação acadêmica invejável.
    Entramos em contato com Shermer para saber sobre seus livros preferidos, suas leituras atuais e sobre a sua percepção da importância da leitura para nossas vidas. Com ele, abrimos um novo espaço no Página Virada, chamado Conversando com..., onde traremos opiniões de diversas pessoas sobre livros e leitura.
    Abaixo, as respostas de Michael Shermer:

Página Virada: O que você está lendo atualmente?
Michael Shermer: The Honest Truth About Dishonesty by Dan Ariely
Imagine by Jonah Lehrer
The Origins of Political Order by Francis Fukuyama
The Power of Habit by Charles Duhigg
Subliminal by Leonard Mlodinow
(obs: nenhum dos livros acima foi publicado no Brasil)

PV: Que livros o influenciaram?
MS: The Better Angels of Our Nature by Steven Pinker
Demon Haunted World by Carl Sagan
Full House by Stephen Jay Gould
The God Delusion by Richard Dawkins
(obs: dos livros acima, as obras de Sagan e Dawkins já foram publicadas no Brasil, com os títulos de O Mundo Assombrado Pelos Demônios e Deus, Um Delírio)

PV: Por que você pensa que é importante ler?
MS: Ler é provavelmente o elemento mais importante no arco do universo moral que nos leva à justiça, igualdade, liberdade e prosperidade. A leitura expande a mente, nos expõe ao novo conhecimento, a pessoas, lugares e ideias, e treina o cérebro para assumir a perspectiva do outro, que é a parte central da moralidade. A filosofia iluminista de que a educação é a salvadora da humanidade tornou-se realidade com o rápido aumento das taxas de alfabetização nos últimos dois séculos. A internet vai ampliar as fronteiras literárias para o mundo inteiro até que, em breve, todo o conhecimento estará disponível gratuitamente para todas as pessoas, em todos os lugares do planeta.