segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Fantasma da Ópera

Por Natália

Impossível haver alguém que nunca ouviu falar do Fantasma da Ópera. Gênio da música e perito na elaboração dos mais variados truques de mágica e ventriloquismo, o Fantasma da Ópera habita os porões da Ópera de Paris, e é ali que ele conhece e treina a soprano Christine Daaé, cujo talento parece emergir da noite para o dia, surpreendendo todos os frequentadores e funcionários da Ópera e despertando no Visconde Raul de Chagny um amor há muitos anos esquecido.
      Embora a existência de um fantasma seja temida por muitos, o espírito na verdade é um homem de carne e osso chamado Erik. Erik é dono tanto de uma voz incrível e de uma inteligência singular como de um rosto deformado, quase impossível de ser contemplado. O maior desejo do Fantasma, porém, é poder ser amado como qualquer pessoa normal, e ele espera que a jovem Christine possa conceder-lhe esse sonho.
      Quando Erik começa a conversar com Christine através das paredes da Ópera, ela acredita que seu falecido pai finalmente lhe enviou o Anjo da Música, conforme a promessa que ele havia lhe feito em seu leito de morte. As lições de canto logo aproximam o Fantasma e a moça, que, ao ver a aparência de seu tutor, não pode evitar sentir pena e uma certa aversão. Embora apaixonada por Raul, Christine se sente inexplicavelmente atraída pelo Fantasma, que parece dedicar sua vida a torná-la uma estrela do teatro francês. Raul, porém, não suporta a interferência de Erik na vida de Christine, e planeja fugir com a moça. Christine concorda com a fuga, mas decide cantar para o Fantasma uma última vez. É no meio dessa apresentação que Christine desaparece misteriosamente, deixando ao atordoado visconde a difícil tarefa de encontrá-la e livrá-la das mãos do Fantasma.
      O Fantasma da Ópera (Ediouro, 2005), de Gaston Leroux, é um clássico da literatura mundial. Muito mais do que uma deliciosa história de mistério (ou de terror, na opinião de alguns; ou de amor, na opinião de outros), a obra pode ser lida como uma metáfora sobre como o mal pode superar o bem se a vontade de conquistar algo é forte demais, sobre como a rejeição desperta nas pessoas o ódio e o desejo de vingança e sobre como a compaixão pode sobreviver mesmo depois que outros bons sentimentos já foram extintos. O Fantasma da Ópera é tudo isso e um pouco mais: as descrições das invenções de Erik e de seus elaborados mecanismos para enganar os frequentadores da Ópera são divertidas, enquanto sua adoração por Christine, sua reação inflamada ao espanto que sua presença e seu rosto causam às pessoas e os relatos sobre sua infância e juventude são profundamente tocantes. O Fantasma da Ópera é uma daquelas obras que deixam o leitor pensativo por um bom tempo depois que a última página foi virada. É também um daqueles casos em que, mesmo que suas adaptações cinematográficas sejam excelentes (e tragam um fantasma muito mais atraente do que o do original), o livro é sem dúvida insubstituível. Está na minha lista de obras a serem relidas um dia.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A educação é o melhor antídoto para a falta de civilidade?

Por Guilherme

Nosso país não precisa de futebolistas”, disse certa vez o Professor Girafales, e mais uma vez ele estava certo em seu raciocínio (normal para um sujeito que errou somente uma vez na vida). Em algumas ocasiões, porém, os jogares de futebol são úteis, mesmo que involuntariamente, por trazerem ao debate público algumas questões muito importantes. A última declaração brilhante partiu de Jô, atacante festeiro que parece não se incomodar com a perturbação que causa aos vizinhos, que precisam conviver com a barulheira das constantes festas promovidas pelo jogador do Inter. Ao invés de entender que cometeu excessos e tentar agir para corrigi-los, o jogador foi claro no recado aos vizinhos: “Quem estiver incomodado que se mude”. Depois dessa, é difícil encontrar maior exemplo de falta de civismo e de bom senso no convívio social.
      O Blog do Editor da Zero Hora publicou ontem um texto no qual discute as soluções para a crescente incivilidade que nos rodeia. Não vou repetir os argumentos do artigo (clique aqui para lê-lo), mas quero me deter em um ponto do problema.
      Costuma-se dizer que a educação pode salvar tudo e todos, e eu tendo a concordar com essa afirmação generalista. Mas, como professor, ouso dizer que a escola atual não é nenhum antídoto contra a falta de civilidade. Se pensarmos na educação da maneira como ela é gerida atualmente, há poucas chances de conseguirmos avanços no campo da cidadania.
      Nossas escolas são essencialmente conteudistas e extremamente preocupadas com o ensino teórico, técnico. Isso não é de todo ruim, pois qualquer pessoa deve ter uma boa base em matérias essenciais como português, matemática, ciências e história, por exemplo. O problema é que algumas disciplinas importantes para a formação dos cidadãos são subvalorizadas, mesmo dentro das próprias escolas. Se fizermos uma enquete nas escolas brasileiras, perguntando aos alunos “quais matérias são importantes para você?”, veremos que entre as últimas colocadas estarão as línguas estrangeiras, a filosofia e a sociologia. As matérias consideradas importantes são aquelas pedidas no vestibular ou no Enem, e as escolas encaminham os alunos para isso, para resolver questões teóricas que eles provavelmente nunca mais verão depois do vestibular. Um detalhe triste: não é somente na cabeça dos alunos que matemática é mais importante que filosofia. Muitos professores também pensam assim.
      A formação de bons cidadãos é um trabalho difícil e, para mim, deve começar na família, a partir de bons exemplos e de ensinamentos que incentivem o respeito aos outros e a empatia. A escola tem um papel complementar, discutindo a convivência social e a importância do papel individual na formação de uma sociedade melhor. A mídia também pode fazer sua parte, dando menos destaque aos “herois” do Big Brother e aos boleiros, por exemplo, e valorizando outros profissionais. As autoridades, como bem lembra o artigo da Zero Hora, também são essenciais ao dar bons exemplos, que andam em falta por aqui.
      O caminho para uma sociedade mais civilizada é longo, mas possível. E ele passa pela discussão e realização de mudanças significativas em nossas escolas.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Novidade

Por Guilherme

Iniciamos o Página Virada a convite do pessoal do jornal Cidadania, de Antônio Prado, como uma coluna destinada a resenhar obras literárias e dar dicas de bons livros para aqueles que acompanham o jornal. A partir da coluna elaboramos este blog, que mantemos desde setembro de 2010.
      Além do blog e do espaço no Cidadania, desde a semana passada estamos colaborando com o Folha de Sananduva, um jornal publicado semanalmente em minha terra natal. Lá, assim como neste blog e no jornal pradense, falaremos de livros, mas também dedicaremos algum espaço a discutir outros temas que aparecem aqui, principalmente educação.
      Para quem mora em Sananduva ou região e tem interesse em receber a versão eletrônica do jornal, é só mandar um e-mail para folhadesananduva@hotmail.com e solicitar o envio, que é gratuito.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Orozimbo Nonato, Pereirão, Aedes etílico e a cultura brasileira

Por Guilherme

O concurso público realizado na cidade paranaense de Cambé tornou-se nacionalmente famoso ao trazer, na prova aplicada aos candidatos a gari, questões muito peculiares. A prova era composta por 40 perguntas, sendo 20 de língua portuguesa, 10 de matemática e, o mais interessante, 10 de “atualidades”.
      Nunca participei da elaboração de provas para concursos, mas na minha ignorância penso que questões relevantes do grupo “atualidades” devam estar relacionadas a política (evitando perguntas do tipo “quem foi o maior presidente do Brasil”, o que parece óbvio, mas não é), a aspectos culturais e históricos relevantes, e até ao esporte e banalidades. O que o concurso de Cambé fez foi superar qualquer expectativa em termos de tosquice.

Se você ainda não viu a prova, clique aqui, vá direto às dez últimas questões e divirta-se.

      Falar de causa e efeito é geralmente complicado, pois muitas vezes os fatores se confundem e a gente não sabe se A causa B ou se B provoca o surgimento de A. Dessa forma, não sei se os potenciais candidatos ao concurso de Cambé (ou qualquer outro lugar do Brasil) estão afinados ao conteúdo das perguntas que foram feitas, ou foi o pessoal do concurso que imaginou que os candidatos devam ter esse nível cultural.
      Independentemente do real motivo de Michel Teló, Valéria “Bandida”, Uga Uga, Aedes Egípcio e outros constarem na prova, entristece saber que esse é nosso ambiente cultural atual.


Bom, é melhor parar de reclamar e falar sério. Qual é a resposta da questão 32?

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Procura-se um Vampiro

Por Natália

Voltando para casa do trabalho, tarde da noite, a garçonete Sookie Stackhouse depara-se com um homem seminu correndo junto à rodovia, atordoado. Sookie o reconhece: ele é o vampiro Eric, o manda-chuva do grupo de vampiros que habita Bom Temps, uma cidade fictícia da Louisiana. Eric, porém, parece estar mudado: ele agora é um vampiro gentil, atencioso, e sem memória. Sookie decide levar o morto-vivo para casa e um pouco depois, em conversa com os subordinados de Eric, descobre que ele está sob o efeito de um feitiço lançado por uma bruxa. Agora, Sookie, Eric e o grupo de vampiros precisam encontrar uma maneira de quebrar esse encanto. Enquanto isso, a garota deve abrigar Eric em sua casa e não deixar ninguém o ver – o que acabará aproximando demais os dois.
      Procura-se um Vampiro (Benvirá, 2011), de Charlaine Harris, é uma obra repleta de aventura, mistério e sensualidade. O livro é o quarto volume da sequência que deu origem à série True Blood, exibida na HBO. O detalhe é que, quando comprei a obra, não me dei conta de que a história já estaria relativamente avançada – imaginei que estava adquirindo o segundo volume da série. Eu já conhecia por alto a história, por já ter assistido a alguns trechos de True Blood: nos tempos atuais, os vampiros decidem “sair do armário” (ou do caixão, como se afirma no livro) e lutar por seus direitos quando, após a invenção de um sangue sintético, a morte de seres humanos para sua alimentação se torna desnecessária. Sookie, a heroína da série, é telepata, mas não consegue ler a mente dos vampiros. Logo no início, ela se apaixona por Bill, um vampiro bonitão que lutou pelo Sul durante a Guerra Civil norte-americana. Em Procura-se um vampiro, Bill, que é subordinado a Eric, está brigado com Sookie e decide fazer uma espécie de retiro no Peru.

      O que me motivou a comprar a obra foi – acreditem – sua capa. Passando pela seção de livros estrangeiros em uma livraria, observei que as capas dos livros da série eram muito engraçadinhas (para uma sequência sobre vampiros): coloridas, com desenhos leves e inocentes – bem diferentes das capas da versão em português, que eu não conhecia na época. Pensei que, talvez, os livros fossem menos sensuais do que a série feita para a televisão. Após a leitura, continuo achando que de fato o são – mas prefiro não os recomendar àqueles que preferem uma história que envolve romances entre vampiros e humanos com juras de amor eterno, ao estilo Crepúsculo.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Retratos da Leitura no Brasil

Por Guilherme

O Instituto Pró-Livro, organização criada em 2006, divulgou há poucos dias os resultados de sua última pesquisa sobre o comportamento do leitor brasileiro. Intitulado “Retratos da Leitura no Brasil”, o trabalho teve por objetivo levantar o perfil do leitor e do não-leitor brasileiro, verificar as preferências do leitor, identificar as barreiras para o crescimento da leitura de livros no Brasil, levantar o perfil do comprador de livros em nosso país e verificar a facilidade de acesso aos livros pela população brasileira.
Foram entrevistadas 5012 pessoas em 315 municípios brasileiros, e os resultados do estudo foram muito interessantes. Alguns dados eu reproduzo abaixo:
- Quando perguntados sobre quais atividades faziam em seu tempo livre, a maioria dos entrevistados (85%) citou “assistir televisão”. Apenas 28% dos entrevistados citaram a leitura.
- Em resposta à questão “Qual destas frases melhor explica o que é leitura?”, 64% dos entrevistados afirmaram que essa atividade é uma “fonte de conhecimento para a vida”, e 41% disseram que é uma “fonte de conhecimento e atualização profissional”, enquanto 12% consideraram uma atividade que “ocupa muito tempo”, 8% afirmaram que é uma “prática obrigatória”, 6% que “produz cansaço / exige muito esforço”, e 5% que é uma “atividade entediante”. (Obs: cada entrevistado podia marcar três opções nessa questão)
- A maioria dos entrevistados (64%) concordou com a afirmação que “ler bastante pode fazer uma pessoa ‘vencer na vida’ e melhorar a sua condição socioeconômica”, embora 40% deles não conheça ninguém que “‘venceu na vida’ por ler bastante”
- Metade dos entrevistados afirmou ter lido algum livro nos últimos três meses, e a maioria dos leitores é composta por mulheres (57%)
- Entre todos os entrevistados, a média de leitura foi de 1,85 livros nos últimos três meses
- Em relação aos gêneros lidos, a maioria dos entrevistados citou a Bíblia, os livros didáticos, os romances e os livros religiosos
- Os cinco escritores brasileiros mais admirados pelos entrevistados foram Monteiro Lobato, Machado de Assis, Paulo Coelho, Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade
- Os cinco livros mais marcantes foram a Bíblia, A Cabana, Ágape, O Sítio do Pica-Pau Amarelo e O Pequeno Príncipe
- A maioria dos entrevistados afirmou que está lendo mais do que lia no passado, e entre os que estão lendo menos, a principal explicação é a falta de tempo ou interesse pela leitura
- Entre os responsáveis pelo incentivo à leitura, os mais citados foram os professores, seguidos pelos pais. Apesar disso, a maioria dos entrevistados afirmou nunca ter visto seus pais ou mães lendo um livro
- A maioria dos entrevistados afirmou obter livros através da compra, do empréstimo por particulares e, em terceiro lugar, nas bibliotecas
- 75% dos entrevistados afirmaram não ir a bibliotecas

O estudo é bastante detalhado e traz outras informações importantes e úteis na elaboração de estratégias para aumentar os índices de leitura no Brasil. Quando se fala em leitura, ainda estamos atrasados com relação a outros países emergentes, inclusive nossos vizinhos argentinos e uruguaios, e essa não é a situação ideal para quem almeja constar na lista dos países mais desenvolvidos do planeta.

Para ter acesso aos resultados estudo na íntegra, visite o site do Instituto Pró-Livro e clique em “Retratos da Leitura no Brasil

sábado, 31 de março de 2012

Fernando Savater fala sobre livros na escola, envelhecimento e morte

Por Guilherme

Gosto das ideias do filósofo e escritor espanhol Fernando Savater (com exceção de sua defesa das touradas, que considero inaceitáveis sob qualquer ponto de vista), famoso no Brasil especialmente por sua obra Ética Para Meu Filho (Planeta, 2005). Savater argumenta que a prática da leitura é uma forma possível de mudar a vida das pessoas, e em suas obras também discute temas como política e ética.

O vídeo abaixo é um trecho de uma entrevista concedida por Savater à RTP, uma emissora de televisão de Portugal. Nele, o espanhol fala sobre como incentivar crianças e jovens a lerem mais, e também expõe algumas ideias sobre o envelhecimento e a morte.