quarta-feira, 9 de maio de 2012

O Livro da Minha Vida (6) - Dom Quixote

Por Valdemir Guzzo*

Escolher um livro, um único, é como escolher uma música, um filme, uma viagem... Penso que o momento também é importante: ele faz a leitura, a música ou um passeio interessantes. Mas um livro? Vou voltar aos anos sessenta e trazer um pouco da minha juventude e adolescência. Tínhamos muito a fazer, como hoje ainda fazemos muito todos os dias. Apenas as situações eram diferentes e toda a novidade nos atraía. Lembro do cinema Dom Vital, lá na praça XV com algumas sessões intermináveis de bons filmes, quase sempre. As pessoas eram atraídas pelo novo, pelo inusitado. Uma tarde, em meio a semana, um avião ‘enorme’ desceu na pista do aeroclube da cidade. Dá para pensar o que aconteceu: uma verdadeira romaria para ver o avião que, em pane, encontrou a pista de Veranópolis. Hoje sei que aquele avião era da antiga Sadia e trazia perto de 30 passageiros mais tripulantes e que atraíram a atenção de boa parte da cidade, inclusive a minha. As coisas eram assim e por isso passávamos horas com os livros, que também nos permitiam viagens imaginárias.
      Mas um livro, e este provavelmente tenha desencadeado meu gosto pela leitura, foi Dom Quixote. Na escola líamos muito. Líamos em parte por cumprir normas e em parte pelo gosto que essa rigidez pelo livro acabou nos proporcionando. O engenhoso Fidalgo de La Mancha me fez rir muito com as peripécias do Cavaleiro e de seu fiel escudeiro Sancho. Moinhos e demônios não me assustaram.
        Hoje, se adolescente, talvez eu desse preferência aos muitos autores regionais. Temos editoras em Caxias do Sul que têm trabalhado muito escritores emergentes e bons escritores. Só nos falta ler seus livros e valorizar seus escritos.

*Valdemir Guzzo é professor

"O Livro da Minha Vida" é um projeto do Blog Página Virada. O blog publicará regularmente um post sobre uma obra que marcou a vida de alguém. Para participar, mande seu texto para paginaviradablog@yahoo.com.br

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Consultório-biblioteca

Por Guilherme

O blog Palavra Escrita destacou uma matéria, publicada no jornal Zero Hora do último domingo, que trata de um consultório odontológico diferente. Na cidade de Campos Borges, no Rio Grande do Sul, um cirurgião-dentista mantém uma admirável biblioteca de mais de mil exemplares em seu consultório. Os livros podem ser consultados pelos pacientes enquanto esperam pela consulta e podem também ser retirados por eles, ou por qualquer outra pessoa da comunidade.
A ideia é excelente e merece nosso aplauso. Tomara que outros profissionais da área da saúde (e de outras áreas) tenham a mesma preocupação em tornar a leitura uma atividade cotidiana e de fácil acesso.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A moderna fábula de Fausto

Por Guilherme

Na história de Goethe, Dr. Fausto recebe a visita do demônio Mefistófeles, que promete ao velho homem o rejuvenescimento, o poder, a sabedoria e a possibilidade de amar uma jovem senhora. Em troca, Dr. Fausto cede sua alma ao demônio, abrindo o caminho para a desgraça.
     Existem várias versões da história de Fausto no folclore e na literatura e, recentemente, um pequeno editorial da revista inglesa New Scientist sugere que a fábula também tem aplicações na vida moderna. Com o título de “Estamos vendendo nossas almas para as redes sociais?”, o texto discute o fato de estarmos fornecendo cada vez mais informações pessoais e nos expondo publicamente em troca de supostos benefícios promovidos pelas redes sociais, como possibilidades de emprego e encontro com amigos, no que parece um contrato informal feito à moda de Fausto e Mefistófeles.
      O tema é polêmico, e o pequeno texto da New Scientist obviamente não o esgota. A afirmação que inicia o editorial, por si só, pode gerar grandes discussões. Afinal, é justo dizer que “se você não está pagando pelo produto, você é o produto?”

Para ler o texto, clique aqui.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O Valor de Educar

Por Guilherme

Estou lendo El Valor de Educar (publicado no Brasil em 2005 pela Editora Planeta, com o título de O Valor de Educar), do espanhol Fernando Savater, uma obra muito interessante sobre o papel da educação escolar na formação das pessoas, a função da família nesse processo e, principalmente, sobre a importância da educação para uma sociedade civilizada.
        Durante a leitura do início da obra percebi, infelizmente, que a condição do professor brasileiro parece ser compartilhada por docentes de países do mundo desenvolvido, como a Espanha. O autor afirma:

Incluso existe en España ese dicharacho aterrador de «pasar más hambre que un maestro de escuela»... En los talking-shows televisivos o en las tertulias radiofónicas rara vez se invita a un maestro: ¡para qué, pobrecillos! Y cuando se debaten presupuestos ministeriales, aunque de vez en cuando se habla retóricamente de dignificar el magisterio (un poco con cierto tonillo entre paternal y caritativo), las mayores inversiones se da por hecho que deben ser para la enseñanza superior. Claro, la enseñanza superior debe contar con más recursos que la enseñanza... ¿inferior?
        Todo esto es un auténtico disparate. Quienes asumen que los maestros son algo así como «fracasados» deberían concluir entonces que la sociedad democrática en que vivimos es también un fracaso. Porque todos los demás que intentamos formar a los ciudadanos e ilustrarlos, cuantos apelamos al desarrollo de la investigación científica, la creación artística o el debate racional de las cuestiones públicas dependemos necesariamente del trabajo previo de los maestros.

        Savater também argumenta que as famílias são indispensáveis na formação das crianças e adolescentes, embora muitas vezes os pais deleguem essa função integralmente às escolas. As famílias, nas palavras do espanhol, estão envolvidas em uma crise de autoridade:

La autoridad en la familia debería servir para ayudar a crecer a los miembros más jóvenes, configurando del modo más afectuoso posible lo que en jerga psicoanalítica llamaremos su «principio de realidad». Este principio, como es sabido, implica la capacidad de restringir las propias apetencias en vista de las de los demás, y aplazar o templar la satisfacción de algunos placeres inmediatos en vistas al cumplimiento de objetivos recomendables a largo plazo.

        O autor trata também de um tema frequentemente esquecido ou relegado ao segundo plano quando se fala em educação hoje, a disciplina:

¿Es preciso recordar que no es posible ningún proceso educativo sin algo de disciplina? En este punto coinciden la experiencia de los primitivos o los antiguos, la de los modernos y la de los contemporáneos, por mucho que puedan diferir en otros aspectos. La propia etimología latina de la palabra (que proviene de discipulina, compuesto a su vez de  discis,  enseñar, y la voz que nombra a los niños, pueripuella) vincula directamente a la disciplina con la enseñanza: se trata de la exigencia que obliga al neófito a mantenerse atento al saber que se le propone y a cumplir los ejercicios que requiere el aprendizaje. El término ha servido para denominar también a las diversas destrezas y conocimientos que se aprenden por este procedimiento: las matemáticas o la geografía son disciplinas cuyo aprendizaje exige a su vez disciplina.

La autoridad ha sido abolida por los adultos y ello sólo puede significar una cosa: que los adultos se rehúsan a asumir la responsabilidad del mundo en el que han puesto a los niños.»

        A falta de disciplina também é evidente quando a escola deixa de ser um local para aprimoramento pessoal e passa a ser local de constante conflito:

En ciudades como Nueva York, encontrar voluntarios cualificados para el arriesgado puesto de maestro es dificilísimo y hay que contentarse con el primer gladiador que se atreve a presentarse como candidato; las clases se han reducido a duraciones inverosímiles —menos de media hora en algunos casos— para que el permanente trasiego impida un cansancio que puede traducirse en agresividad. Malcriados en la cultura del  zapping, que fomenta el picoteo histérico entre programas, discos, etc., y les hace incapaces de ver o escuchar nada de principio a fin, es difícil  que aguanten una clase completa de algo que no les apasione sin tregua y, aún peor, les obligue a esforzarse un tanto. De modo que es el pobre profesor quien carga con la peor parte, a menudo con riesgo de su integridad física. Por supuesto, en gran parte estas situaciones semibélicas provienen de conflictos sociales de los que la escuela no es responsable y que por tanto ella sola no puede resolver, pero en cualquier caso es evidente que algo no marcha bien. La infancia y la adolescencia están cada vez con mayor frecuencia inmersas en la práctica de la violencia: en ciertos lugares padeciéndola, en otros ejerciéndola y en no pocos lo uno y lo otro, sucesivamente. Dentro de este panorama, la función humanizadora de la educación se convierte a veces en un sueño impotente...

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fora de Série: Outliers

Por Guilherme

Malcolm Gladwell é um jornalista canadense cuja especialidade é escrever obras de um gênero chamado por americanos e ingleses de “smart thinking”, ou seja, livros com ideias originais, aparentemente incomuns, que explicam (ou tentam explicar) os mais variados aspectos do comportamento humano.
      Gladwell mantém a mesma fórmula em Fora de Série: Outliers (Sextante, 2008), obra na qual tenta explicar porque algumas pessoas prosperam em suas atividades enquanto outras, igualmente capazes intelectualmente, não. A justificativa, para o autor, é um conjunto de fatores sociais, entre eles ter nascido no local e no momento certo, e estar em um ambiente adequado para seu desenvolvimento intelectual e pessoal. Para embasar a sua teoria, Gladwell apresenta diferentes exemplos, aparentemente desconexos, que vão sendo interligados ao longo dos nove capítulos do livro. A data de nascimento de jogadores de hockey canadenses, o ano de nascimento de gênios da informática e da advocacia, aliado ao local onde eles viviam no começo da adolescência, a nacionalidade dos pilotos de avião, o número de horas de prática de determinada atividade, como a música – todos esses fatores parecem estar associados ao sucesso dos profissionais, e aumentam a probabilidade de que um deles seja um fora de série.
      Outliers é um livro interessante e de rápida leitura. Nele, Gladwell justifica a fama de bom contador de histórias e a habilidade em juntar casos distintos para explicar um panorama maior. No entanto, a base do livro é bastante óbvia: um sujeito fora de série, como Bill Gates ou Paul McCartney, deve ter uma habilidade natural e uma facilidade em desenvolver seu trabalho com qualidade, além de estar no local certo, na hora certa, encontrando pessoas certas. Isso não é novidade alguma.
      Após terminar Outliers fiquei pensando em um argumento que li há algum tempo, e que de certa maneira ilustra a teoria de Gladwell. Gandhi foi um grande líder pacifista porque era, acima de tudo, uma boa pessoa, motivada por ideais nobres. Entretanto, as circunstâncias foram fundamentais para que sua luta tivesse sucesso. Imagine se Gandhi tivesse nascido na Europa, na década de 1910, e durante a Segunda Guerra Mundial estivesse em luta contra a Alemanha. Certamente seus esforços pacifistas não teriam qualquer valia, já que ele seria morto pelos nazistas em sua primeira manifestação pela paz. Imagino quantas pessoas de índole semelhante a Gandhi habitaram a Europa na época da Segunda Guerra, e penso no tremendo azar que elas tiveram por encontrarem-se em tais circunstâncias.
      Questões alheias a nós, como mostrou Gladwell, podem nos tornar Outliers. Elas podem, da mesma forma, nos destruir.

domingo, 22 de abril de 2012

Ótimas leituras para o começo da semana

Por Guilherme

- O dia 23 de abril foi escolhido pela UNESCO como o Dia Mundial do Livro. A importância do livro deve ser louvada todos os dias, e a questão da formação dos leitores também deve estar constantemente na pauta das escolas e governos. O tema da formação dos leitores, aliás, foi abordado com propriedade pelo amigo Marcos Kirst em seu blog. O texto pode ser lido aqui.

- As novas tecnologias estão ajudando as pessoas a conhecer mais coisas? Ou estão nos tornando ligados a coisas mais fúteis e banalidades? A professora Daniela Torres, em um texto no blog da Zero Hora (clique aqui para acessá-lo), discute o uso da internet nas escolas. Vale a pena conferir.

- A idade autoriza as pessoas a agir da maneira que quiserem? Ou a falta de respeito por parte de idosos é simplesmente uma extensão de uma vida de pouca preocupação com as outras pessoas? Gilmar Marcilio usou sua afinada percepção do cotidiano para discutir esse assunto polêmico, e o seu texto pode ser lido aqui.

- O que deveríamos esperar dos outros? é o nome do texto do filósofo inglês Julian Baggini e de Antonia Macaro. O final do texto de Baggini e Macaro nos dá uma ótima ideia a respeito de como deveríamos entender nossas próprias expectativas. O artigo (em inglês) está aqui.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Aventureiro no Café Literário

Por Guilherme

Na próxima quarta-feira, dia 25 de abril, acontecerá o 27º Café Literário de Antônio Prado. O convidado para o bate-papo é o jornalista e escritor José Ferreira da Silva, o caxiense que viajou por 54 países – percorrendo mais de 85 mil quilômetros – com uma lambreta no final da década de 1960. As experiências da incrível viagem do jornalista estão em seu livro O Aventureiro – a volta ao mundo de lambreta.
Todos estão convidados para ouvir as histórias de Ferreira e conversar com o autor.


Para saber mais sobre o autor e sua viagem, clique aqui e aqui.