segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O verdadeiro valor das coisas

Na década de 1920, o filósofo alemão Moritz Schlick escreveu um artigo intitulado “On the meaning of life” (“Sobre o sentido da vida”). A grande preocupação de Schlick era a de que, para muitas pessoas, o sentido da vida se encontrava no trabalho, e que não havia muito valor fora dele. O que o filósofo alemão testemunhava, na década de 1920, era uma verdadeira idolatria ao trabalho, e tal adoração persiste até os dias atuais, marcadamente em países como os Estados Unidos, mas também em regiões de colonização européia, como na serra gaúcha.
    Segundo Mark Rowlands, filósofo galês e autor do excelente O filósofo e o lobo (Objetiva, 2010), o trabalho se constitui em uma atividade que tem valor instrumental (ou extrínseco): o trabalho é bom porque a partir dele podemos conseguir outras coisas. Trabalhamos para receber o pagamento pelo trabalho que fizemos, e com o dinheiro podemos comprar aquilo que quisermos (ou pudermos), podemos viajar, podemos manter um nível de vida de certo conforto, etc. O valor do trabalho, por isso, não está nele mesmo, mas naquilo que ele nos possibilita ter ou fazer. Schlick ia além, e afirmava que o trabalho não é algo necessariamente remunerado: sempre que faço A para obter B, estou trabalhando.
    Passamos a maior parte de nossas vidas trabalhando, se considerarmos as definições apresentadas por Rowlands e Schlick. A maior parte das coisas que fazemos em nosso cotidiano vale por aquilo que elas nos possibilitam. Ligamos o aparelho televisor de nossa sala para esquecer nossos problemas. Lemos um artigo ou um livro porque temos provas a realizar, na escola ou na universidade. Caminhamos pelas ruas de nossa cidade porque queremos perder peso. Obviamente, as razões apresentadas para assistir a algo na TV, ler ou caminhar são importantes e válidas. Mas, segundo Rowlands, elas não são as melhores justificativas ou, pelo menos, elas nos afastam do maior valor que pode existir em uma leitura, ou em uma caminhada.
    Consideramos que alguma atividade tem valor intrínseco quando encontramos valor nela própria, ou seja, quando a atividade é um fim em si mesma. Mark Rowlands escreve a esse respeito em Running with the pack: thoughts from the road on meaning and mortality (Granta, 2013, ainda não publicado no Brasil), um livro que pode ser considerado como uma espécie de continuação de O filósofo e o lobo. Para Rowlands, correr é uma atividade de valor intrínseco. O autor passou boa parte de sua vida correndo em companhia de cães (e do lobo Brenin) e, com o tempo, começou a entender essa atividade como tendo um valor muito maior do que qualquer um normalmente atribuído a ela. Muitas pessoas correm para perder peso, para aliviar o estresse, ou para realizar alguma atividade social (quando correm em um grupo de pessoas – ou com os cães, como faz o filósofo), entre outros motivos. Mas sempre há um motivo para alguém correr. Rowlands afirma ter aprendido que, mais do que esses objetivos, correr pode ser algo mais. Correr com o único propósito de correr é o que tem feito o autor, apesar da dor e do mal estar que uma corrida algumas vezes causa. E correr por correr – a experiência pela experiência – é o que confere um grande significado à corrida.
    Rowlands escreve: “se queremos encontrar valor na vida, algo que poderia se apresentar como um possível sentido da vida, ou um de seus sentidos – então precisamos procurar por coisas que não têm propósito. Dito de outra maneira: a condição necessária para que alguma coisa seja realmente importante na vida é que ela não tenha um propósito fora dela mesma – que ela seja inútil para qualquer outra coisa. A inutilidade – nesse sentido – é uma condição necessária do valor real. Se o valor de algo fosse uma questão de sua utilidade para algo mais, então seria esse algo mais o centro do valor”. Assim, afirma o autor, encontrar um sentido intrínseco em boa parte das coisas que fazemos (considerando que é muito difícil, senão impossível, encontrar valor intrínseco em todas) é um dos caminhos para ter uma vida mais significativa.

   Terminei a leitura de Running with the pack e passei a pensar em como minhas atividades podem ser enquadradas em instrumentais ou de valor intrínseco. Parte significativa das coisas que faço, admito, tem valor instrumental. As faço porque preciso delas para outra coisa. Mas tenho aprendido e, principalmente, sentido, que tantas outras atividades que realizo são boas e valorosas por si mesmas. É esse o sentimento que tenho durante e depois de uma boa aula (seja eu professor ou aluno) ou da leitura de um bom livro. É assim que me sinto depois de uma caminhada com meus cães. É assim também quando converso com alguém sobre algum tema interessante. É assim quando sento ao lado de minha namorada, ou de meus pais, para tomar um chimarrão. E, por isso, dou razão a Rowlands quando ele afirma que a vida passa a ter mais significado quando extraímos mais sentido das coisas que fazemos.

domingo, 15 de setembro de 2013

O dragão na minha garagem

“O dragão na minha garagem” é o título do capítulo 10 de O Mundo Assombrado Pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro (Companhia das Letras, 1996, editada posteriormente pela Companhia de Bolso), de Carl Sagan, um clássico do pensamento cético e um dos livros de divulgação científica mais importantes das últimas décadas. A ideia geral do capítulo (retomada por Sagan em vários outros pontos do livro) é: por que eu deveria acreditar em alguma coisa, especialmente se ela é extraordinária, como unicórnios ou o monstro do Lago Ness? Se não há boas evidências de que algo exista, é razoável tomar isso como verdade? E, considerando tudo aquilo em que acreditamos, temos boas razões para sustentar nossas crenças? Estabelecemos critérios mínimos para aceitar algo, ou acreditamos naquilo que nos parece melhor e mais confortável? Mais: temos disposição e atitude crítica para analisar argumentos e evidências que são contrárias (e, talvez, mais fortes e convincentes) a nossas tão estimadas verdades?
Abaixo, um trecho de “O dragão na minha garagem”, do excelente livro de Sagan:


– Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem.
Suponhamos (estou seguindo uma abordagem de terapia de grupo proposta pelo psicólogo Richard Franklin) que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade!
– Mostre-me – você diz. Eu o levo até a minha garagem. Você olha para dentro e vê uma escada de mão, latas de tinta vazias, um velho triciclo, mas nada de dragão.
– Onde está o dragão? – você pergunta.
– Oh, está ali – respondo, acenando vagamente. – Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível.
Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão.
– Boa idéia – digo eu –, mas esse dragão flutua no ar.
Então você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.
– Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.
Você quer borrifar o dragão com tinta para tomá-lo visível.
– Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.
E assim por diante. Eu me oponho a todo teste físico que você propõe com uma explicação especial de por que não vai funcionar.
Ora, qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? Se não há como refutar a minha afirmação, se nenhum experimento concebível vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe? A sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é absolutamente a mesma coisa que provar a veracidade dela. Alegações que não podem ser testadas, afirmações imunes a refutações não possuem caráter verídico, seja qual for o valor que possam ter por nos inspirar ou estimular nosso sentimento de admiração. O que estou pedindo a você é tão-somente que, em face da ausência de evidências, acredite na minha palavra.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O caminho da ciência

Agora, mais do que nunca, nós precisamos reconhecer que a alfabetização científica e o pensamento crítico não são somente ferramentas para os cientistas profissionais; eles são habilidades vitais básicas, tão vitais para nosso crescimento pessoal e intelectual quanto a leitura, a escrita e a aritmética. E, contrariamente à crença popular, os fundamentos da atividade científica e do pensamento crítico são conceitos que podem ser bem assimilados pelo intelecto médio

... E mesmo assim, apesar das montanhas de evidências que atestam o poder sem-igual do método científico em separar fato de fantasia, a ideia de que a ciência possa oferecer a descrição mais precisa da condição humana, e assim prover a melhor medida de nossas obrigações morais, é uma noção que muitas poucas pessoas estão preparadas para sequer considerar, muito menos aceitar

... E, pior de tudo, nossa incapacidade de promover as capacidades de pensamento crítico desde as primeiras séries escolares mina nossa habilidade, enquanto seres humanos racionais, de examinar velhas suposições à luz de novas evidências, e de ajustar nosso pensamento de acordo com isso, aspectos que tornam o progresso intelectual e moral possível

Considere a teoria atômica, por exemplo. Mesmo que ninguém tenha realmente visto um átomo, este conceito recebe aceitação universal não somente por causa de seu impressionante registro empírico mas, mais importante, porque muitas poucas pessoas consideram a existência de átomos e quarks pessoalmente ofensiva.
        ...Ainda assim, milhões de americanos sentem-se perfeitamente justificados ao ignorar a evolução, como se eles estivessem escolhendo em um menu de teorias científicas e descartando aquelas que eles pessoalmente consideram desagradáveis... Essa atitude à la carte com relação às ciências em geral, e a evolução, em particular, é inquietantemente comum, e quase que certamente deriva de vieses culturais antigos, que dispensavam o exame crítico em uma população mal informada

Trechos de The way of science: finding truth and meaning in a scientific worldview (O caminho da ciência: encontrando verdade e significado em uma visão de mundo científica, ainda não lançado no Brasil), escrito pelo biomédico Dennis Trumble e publicado pela Prometheus Books em 2013.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O mundo não acabou, mas fomos apresentados à dissonância cognitiva

Nos anos 1950, uma dona de casa americana chamada Dorothy Martin ganhou notoriedade ao afirmar que o mundo acabaria através de uma grande enchente antes do amanhecer do dia 21 de dezembro de 1954. A teoria de Martin, por si só esquisita, ganhou uma conotação ainda mais bizarra quando a mulher revelou a fonte da informação: extraterrestres de um planeta denominado Clarion haviam lhe avisado a respeito do fim do mundo. Os alienígenas foram mais longe, e comunicaram a Dorothy que ela e mais um grupo de pessoas que deveria se juntar a ela (os “verdadeiros crentes”) seriam levados por uma nave extraterrestre e salvos do apocalipse. Muitas pessoas abandonaram seus empregos e suas famílias para se juntar à Dorothy, e a espera pelo fim do mundo – e pela vinda do disco voador – havia começado.
        Leon Festinger, um jovem psicólogo cognitivo, ficou bastante interessado pelo grupo de Martin (ele havia lido sobre o caso em um jornal). Festinger não acreditava que o mundo iria acabar, mas sabia que aquela era uma oportunidade muito boa para se observar e coletar informações a respeito de como as pessoas justificam e adaptam as suas crenças aos fatos. Assim, Festinger estaria atento às justificativas que seriam apresentadas pelos líderes do grupo, especialmente Dorothy Martin, sobre a razão de o mundo não ter acabado como se previa, e nem os extraterrestres aparecido. Festinger se infiltrou no grupo e passou a acompanhar os momentos derradeiros. Uma breve descrição daquilo que Festinger observou nos dias anteriores e posteriores ao esperado apocalipse pode ser lida na Wikipédia:
- antes de 20 de dezembro de 1954: o grupo evita publicidade. O grupo desenvolve um sistema de crenças – obtido do planeta Clarion através de psicografia – para explicar os detalhes do cataclismo, as razões para sua ocorrência, e a maneira pela qual o grupo poderia escapar do desastre
- 20 de dezembro: o grupo espera que um visitante de outro planeta apareça e os acompanhe até uma espaçonave. Para isso, os membros do grupo precisam se desfazer de quaisquer objetos metálicos. As pessoas descartam objetos que possuem peças metálicas e aguardam os alienígenas
- 00h05min de 21 de dezembro: nenhum extraterrestre aparece. Alguém nota que um relógio marca 23h55min, e então o grupo concorda que ainda não é meia-noite
- 00h10min: todos os relógios já marcam meia noite, e ainda nenhum visitante apareceu. O grupo espera em silêncio, pois o cataclismo vai ocorrer em menos de sete horas
- 4h: o grupo está sentado e em completo silêncio. Algumas tentativas de encontrar explicações para o não aparecimento dos alienígenas falham. Martin começa a chorar
- 4h45min: outra mensagem é psicografada por Dorothy Martin. Ela diz que o Deus da Terra decidiu livrar o planeta da destruição. O cataclismo foi cancelado. A explicação: “O pequeno grupo de pessoas, sentado a noite inteira, tinha espalhado tanta luz que Deus decidiu salvar o mundo da destruição”
- tarde de 21 de dezembro: contrariamente ao que ocorria antes, o grupo chama a imprensa. Sua mensagem deve ser espalhada pelo mundo inteiro.
        O final do mundo não ocorreu, como alardeava o grupo de Dorothy Martin. Ao invés de um pedido de desculpas pela besteira ou, pelo menos, de um simples “eu estava enganada” ou “me iludi, isso pode acontecer com qualquer um”, Martin ajustou a sua crença com o inescapável fato de que o mundo continuava como antes. Agora, os aliens haviam avisado que foi a boa energia do grupo da dona-de-casa que tinha salvado o mundo. Se não fosse essa a justificativa usada, certamente outras seriam inventadas.
        Em 1956, Festinger publicou When Profecy Fails, obra que trata da história do grupo de Martin – o autor usou pseudônimos para os personagens: Dorothy Martin virou Marian Keech –, e cunhou o termo que representaria um dos fenômenos mais estudados na psicologia social da segunda metade do século XX: a dissonância cognitiva.
        Experimentamos a dissonância cognitiva quando tentamos sustentar ideias, crenças ou opiniões incompatíveis entre si, ou que não são compatíveis com informações e evidências que recebemos de outras fontes. Assim, um sujeito que joga lixo no chão e se justifica dizendo que os responsáveis pela poluição são as grandes empresas está amarrado pela dissonância cognitiva. Você comprou um aparelho de celular novo, pagou muito caro por ele, mas ele não é tão bom quanto você imaginava que fosse. Aí, um amigo lhe pede sobre a qualidade do celular. Você provavelmente vai elogiar o aparelho, minimizar os defeitos, ou mesmo não reconhecê-los.
        A dissonância cognitiva é utilizada por qualquer pessoa nas mais diversas situações do cotidiano. Esse é um recurso cognitivo absolutamente normal, e sem ele nós provavelmente enlouqueceríamos. No entanto, a dissonância cognitiva pode ser perigosa se nos mantiver em uma situação parecida com a dos seguidores do grupo de Dorothy Martin ou, em um exemplo mais extremo, se nos fizer embarcar em uma viagem sem volta junto ao líder de uma seita, como as mais de 900 pessoas que seguiram Jim Jones à Guiana na década de 1970.
        O filósofo inglês Stephen Law afirmaria que as pessoas que seguiram líderes como Martin e Jones caíram em “buracos negros intelectuais”. Buracos negros intelectuais são sistemas de crença nos quais seus seguidores ficam presos, mesmo que não percebam. Quando confrontados com a realidade (o mundo não acabou!), essas pessoas procuram maneiras de enfrentar os novos fatos sem que seja necessário desfazerem-se de suas crenças anteriores. Uma vez dentro de um buraco intelectual é difícil sair dele, porque a influência de mecanismos psicológicos como a dissonância cognitiva é muito forte.
        Apesar de se aplicarem a determinados cultos religiosos, os buracos negros intelectuais não se restringem a eles. Recentemente, o Ministério Público Federal denunciou algumas empresas por manterem um suposto esquema de pirâmide financeira, não sustentável a longo prazo porque a sua manutenção implica na entrada do dinheiro de novos investidores. Quem, no Facebook, visita a página de qualquer uma das empresas envolvidas no suposto esquema vai encontrar uma série de comentários de seus investidores. É raro encontrar alguém que duvide das empresas. Assim, teorias da conspiração envolvendo políticos, ministros, empresas de telefonia, procuradores de justiça e advogados parecem muito mais plausíveis do que simplesmente admitir que o sujeito foi envolvido em um golpe.



        Stephen Law trata de algumas armadilhas de pensamento em Believing Bullshit: how not to get sucked into an intellectual black hole (Prometheus Books, 2011, sem tradução para o português). Um livro recentemente lançado no Brasil, A Arte de Pensar Claramente: como evitar as armadilhas do pensamento e tomar decisões de forma mais eficaz (Objetiva, 2013), de Rolf Dobelli, traz uma lista de vieses e tendências de pensamento que muitas vezes nos põem em situações complicadas. A dissonância cognitiva é um dos temas tratados nessa obra. Outra boa leitura sobre a dissonância cognitiva e outros vieses psicológicos é Ideias Próprias: como o cérebro distorce a realidade e o engana (Difel, 2008), de Cordelia Fine.


sábado, 10 de agosto de 2013

Conversando com Massimo Pigliucci

O biólogo e filósofo ítalo-americano Massimo Pigliucci é um sujeito de múltiplos interesses. Professor na City University of New York, Pigliucci realiza pesquisas e escreve sobre genética, biologia evolutiva e filosofia da ciência e, além da carreira acadêmica, escreve para o público geral em seu blog, Rationally Speaking, e em sua página na internet, Plato’s Footnote (uma fonte riquíssima em recursos – há artigos, palestras e textos do autor disponíveis para download). Pigliucci é também autor de excelentes livros sobre ciência e filosofia, entre os quais Answers for Aristotle: how science and philosphy can lead us to a more meaningful life, Denying evolution: creationism, scientism, and the nature of science, Tales of the rational: skeptical essays about nature and science, e Nonsense on stilts: how to tell science from the bunk (nenhuma das obras foi publicada no Brasil). O autor, que é também um grande defensor da educação científica contra a superstição e as pseudociências, gentilmente aceitou o convite do blog para falar sobre alguns temas comumente presentes em seus escritos.

Página Virada: O que você está lendo agora?
Massimo Pigliucci: Hitler’s Philosophers, de Yvonne Sherratt (obra ainda não lançada no Brasil), um olhar fascinante a respeito de como os nazistas faziam mau uso da filosofia (por exemplo, de Kant e Nietzsche), mas também sobre como filósofos estavam explicitamente envolvidos com a máquina de propaganda nazista (p. ex., Heidegger). Há muitas boas lições, tanto de história quanto do papel da filosofia, para serem aprendidas neste livro.

PV: Que livros o influenciaram?
MP: Muitos, certamente. Mas acima da maioria estão a Autobiografia de Bertrand Russell, que me introduziu à filosofia quando eu era um adolescente; O Mundo Assombrado Pelos Demônios de Carl Sagan, ainda hoje um dos melhores trabalhos populares sobre pseudociência e pensamento crítico; Investigação Sobre o Entendimento Humano, de David Hume, certamente um dos melhores e mais acessíveis trabalhos de filosofia; Eutífron de Platão, um diálogo curto deliciosamente escrito sobre a relação entre religião e moralidade; Advice to a Young Scientist, de Peter Medawar (obra não lançada no Brasil), que eu li antes de ir à universidade; e um grande número de livros de Stephen Jay Gould, que foi meu modelo intelectual durante os primeiros anos de minha carreira como biólogo evolucionista.

PV: Como o ato de ler pode ser importante para a vida de alguém?
MP: E como não seria? Através da leitura, nós entramos em uma conversa com algumas das melhores mentes que a humanidade produziu através de toda a história registrada. Não há simplesmente nada semelhante a esse tipo de experiência.

PV: Pessoas como Deepak Chopra e Fritjof Capra têm escrito livros sobre ciência e espiritualidade, mas a visão deles a respeito de muitas questões difere em muito do consenso da comunidade científica em diversas áreas. Em sua opinião, o trabalho de autores como Chopra e Capra contribui para disseminar a ciência para o público, ou faz o oposto, confundindo as pessoas e criando uma falsa ideia sobre o que a ciência é?
MP: Não consigo falar coisas ruins o suficiente a respeito de Chopra. Ele é um charlatão que presta um desserviço ao público. Quanto à Capra, não posso fazer melhor que Victor Stenger, quando caracterizou o seu trabalho (e o de Chopra) como “charlatanismo quântico” (quantum quackery) na Skeptical Inquirer.

PV: Algumas pessoas acreditam que há uma razão ou um propósito para tudo o que acontece conosco, e essas razões e propósitos estão ligados a algum tipo de “desejo divino” ou a um “plano espiritual”. Muitas dessas pessoas não podem sequer conceber a ideia de que talvez não exista um deus ou uma recompensa após a morte. Se não existir um deus ou um plano espiritual, alguns deles dizem, não há razão para estarmos aqui, e nossas vidas não têm sentido. O que um filósofo tem a dizer sobre isso?
MP: Creio que essas pessoas cedem ao mais profundo tipo de orgulho: esperar que o próprio universo (ou Deus) deveria se preocupar com o que acontece com eles, senão nada tem valor! Sentido na vida – como eu argumentei em meu Answers for Aristotle (obra ainda não publicada no Brasil, e que será discutida em breve aqui no blog) – vem de dentro, não de fora. Nós construímos sentido a partir de nossos projetos de vida, incluindo nossas relações com outros seres humanos. Por que razão isso não seria suficiente?

PV: Aqui no Brasil, as pessoas frequentemente reclamam da qualidade dos políticos. Sempre lemos a respeito de corrupção, mau uso de recursos públicos, incompetência, administradores que são analfabetos, outros que trabalham para as pessoas de seus partidos políticos, e assim por diante. É possível que os eleitores enfrentem esses problemas pensando criticamente? Como?
MP: Ah, não é só no Brasil. Acredito que esse seja um esporte internacional, e infelizmente os políticos do mundo todo continuam nos dando várias razões para pensar assim. Sim, claro, a educação e o pensamento crítico são ferramentas cruciais para se navegar em um mundo complexo, incluindo o mundo da política. Infelizmente, nós raramente ensinamos o pensamento crítico, e ele não vem naturalmente aos seres humanos. O que você me pergunta é uma questão complexa, e não há uma simples resposta, mas eu aconselharia os seus leitores para que continuem lendo, ampla e criticamente, sem deixarem-se cair em um cinismo auto-destrutivo. É um balanço difícil de manter.

PV: Para aqueles que querem ler boas obras de ciência e filosofia, mas não conhecem muito bem essas áreas, que autores ou livros você recomendaria?
MP: Bem, praticamente os mesmos que eu mencionei na resposta à sua primeira questão, creio. Nós vivemos em uma época em que bons livros a respeito de todo o tipo de assunto estão disponíveis ao pressionar de uma tecla (pelo menos para aqueles de nós que são sortudos o suficiente para serem alfabetizados, terem um conexão com a internet e dinheiro suficiente para investir – o que deixa a maior parte da população mundial de fora!). Então, que usemos essa sorte e a espalhemos: maior grau de instrução no mundo inteiro é um fator importante para enfrentar a pobreza, a violência e a superstição.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Truques da Mente

Há séculos, nossos sistemas de percepção do mundo têm sido enganados de forma proposital por artistas talentosos. Os grandes mestres da pintura sabem como utilizar tonalidades distintas de cores, entre outros recursos, para nos dar a sensação de que estamos vendo uma paisagem em profundidade quando olhamos para uma tela. Produções de cinema usam sons, combinações de luzes, efeitos tridimensionais e animações computadorizadas para dar um ar especial a seus filmes, o que faz com que fiquemos assombrados com a qualidade daquilo que vemos, um espetáculo para nossos olhos e ouvidos. Na verdade, qualquer pessoa que liga um aparelho televisor vai ficar imersa em uma combinação de imagens e sons que irão estimular de tal modo seus sentidos que muitos detalhes passarão despercebidos, como os comuns erros de continuidade em filmes (personagens cujas roupas mudam de cor subitamente, mudanças em objetos no cenário, etc.).
        O francês Ernest Ostrowsky, sua mulher e seu filho também são mestres na arte de enganar nossos sentidos, mas não através de pinturas ou da televisão. A família Ostrowsky é composta por mágicos, e seu mais famoso número, chamado “Omar Pasha”, é uma das apresentações mais impressionantes que eu já vi. “Omar Pasha” é um número de teatro negro, ou seja, um número encenado em um palco totalmente negro, iluminado com luzes negras. No palco, um homem (Omar Pasha) vestido com uma roupa branca, capa vermelha e com um turbante aparece ao som do Bolero de Maurice Ravel. Pasha começa, então, a interagir com o cenário, “desenhando” um grande candelabro com velas vermelhas, usando para isso uma caneta que ele tira do turbante. Para espanto do público, o candelabro de Pasha se transforma em um objeto real, e o homem o levanta, leva para outro lado do cenário e ainda acende as três velas que estão na parte superior do objeto. O truque do candelabro é o primeiro de uma sequência inacreditável, que inclui o surgimento e desaparecimento de objetos grandes como cadeiras, a aparição de pessoas, e até uma decapitação. A primeira pergunta que a maioria das pessoas deve se fazer depois de assistir à apresentação de Omar Pasha é: “como ele faz isso?” E como o público não percebe os truques?
        Famosos mágicos contemporâneos, como os da família Ostrowsky, Penn & Teller, David Copperfield, David Blaine e Criss Angel seguem a tradição dos mestres da magia, como Harry “O Grande” Houdini, um dos maiores da história nessa arte. E, da mesma maneira que Houdini, os melhores mágicos de hoje não podem contar apenas com habilidade manual, rapidez e perspicácia, embora esses sejam requisitos básicos de um grande mágico. Mestres da magia também precisam conhecer como as pessoas reagem aos truques, e de que forma seus sistemas de percepção podem ser ludibriados. Omar Pasha apela a um grande número de estímulos visuais, e a escuridão do cenário é o ponto crucial de toda sua apresentação. Talvez as pessoas que assistem ao número até desconfiem de como ele é realizado, mas os truques se desenrolam com tamanha naturalidade e em um ritmo elaborado de modo a impossibilitar aos espectadores que descubram os segredos de Pasha.

        Os neurologistas Stephen Macknik e Susana Martinez-Conde têm acompanhado os números de mágica há algum tempo, pois pensam que eles podem revelar muito a respeito de como pensamos e vemos o mundo – e de como podemos ser enganados por nossas próprias percepções. As ideias de Macknik e Martinez-Conde sobre a relação entre a mágica e as nossas percepções estão no ótimo Truques da Mente: o que a mágica revela sobre o nosso cérebro (Editora Zahar, 2011). “O que você vê, ouve, sente e pensa se baseia no que espera ver, ouvir, sentir e pensar”, escrevem os autores. E é bom estarmos cientes disso, pois não são somente os mágicos que lucram com nossas fraquezas de percepção.

O teatro de Omar Pasha


O truque do avarento


Um bom acervo de vídeos sobre mágica e neurociência está disponível no site dos autores de Truques da Mente. Para acessá-lo, clique aqui.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Perdendo o futuro

O filósofo Mark Rowlands escreve a respeito da morte em Scifi = scifilo, e discute se ela pode ser ruim por nos privar de algo que almejamos boa parte de nossa vida, e de coisas para as quais dedicamos muitos de nossos esforços. Alguém que tem uma vida orientada para o futuro, argumenta Rowlands, tem o que ele chama de um “futuro forte”. Um sujeito que não investe em seu futuro, e não se preocupa com ele, tem, por sua vez, um “futuro fraco”. Rowlands usa os dois termos para apresentar algumas de suas ideias sobre a morte. O autor, em O Filósofo e o Lobo, obra escrita posteriormente à Scifi = scifilo, descarta boa parte das coisas que escreveu sobre os futuros fraco e forte. A convivência com o lobo Brenin parece ter feito Rowlands reconsiderar a ideia de que a morte não é, por si só, ruim para os animais, indivíduos que ele imaginava possuírem um futuro fraco. O trecho abaixo foi extraído do livro Scifi = scifilo:

A morte é uma coisa ruim porque nos priva de um futuro. Todavia, vemos agora que é possível ter um futuro de duas maneiras diferentes, uma forte e outra fraca. Isto faz diferença para o caráter danoso ou ruim da morte? Seria a morte pior para alguém que possui um futuro forte que para alguém que só tem um futuro fraco?
        Acredito que sim. Alguém que possui um futuro forte, orientando muito de seu comportamento presente e disciplinando muitos de seus desejos presentes rumo a uma concepção de como esta pessoa quer que seu futuro seja, é mais fortemente ligado ao seu futuro que alguém que tem apenas um futuro fraco. Logo, uma pessoa que tem um futuro forte tem mais a perder, ao perder um futuro, que uma pessoa que possui apenas um futuro fraco.
        Se isto não ficou claro, considere o exemplo seguinte: duas pessoas vão às Olimpíadas competir no triatlo. Uma delas treinou por anos, orientou sua vida, organizou seu comportamento e disciplinou seus desejos para atingir esse objetivo. A outra é uma atleta preguiçosa e incapaz que chegou aos jogos olímpicos, vamos supor, através de um erro de identificação. Nenhuma das duas ganha uma medalha. Às vezes falamos que alguém “perdeu” a medalha. Se isto é realmente uma perda, então aparentemente a perda maior é sofrida pela primeira atleta, já que ela organizou sua vida ao redor desta meta. Muito de sua vida foi vivida por causa deste objetivo futuro, que ela não atingiu. Ela tinha claramente mais dela mesma investido em conseguir a medalha que a outra atleta. Logo, sua perda é maior.
        Estou argumentando de maneira semelhante ao prejuízo envolvido em perder um futuro. Quanto mais você tiver investido no futuro, julgando em termos de organização, orientação, disciplinamento e arregimentação de seu comportamento e desejos presentes, mais você perde quando perde tal futuro. Se você tem um futuro num sentido conceitual, ou forte, então, quando você morre você perde mais do que se você possuísse um futuro apenas no sentido fraco, não-conceitual. A morte é um prejuízo maior para aqueles que têm um futuro forte, pois na morte eles perdem mais que aqueles que possuem um futuro apenas fraco.



Extraído de ROWLANDS, M. Scifi = scifilo: a filosofia explicada pelos filmes de ficção científica. Rio de Janeiro: Relume, 2005.