sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O caminho da ciência

Agora, mais do que nunca, nós precisamos reconhecer que a alfabetização científica e o pensamento crítico não são somente ferramentas para os cientistas profissionais; eles são habilidades vitais básicas, tão vitais para nosso crescimento pessoal e intelectual quanto a leitura, a escrita e a aritmética. E, contrariamente à crença popular, os fundamentos da atividade científica e do pensamento crítico são conceitos que podem ser bem assimilados pelo intelecto médio

... E mesmo assim, apesar das montanhas de evidências que atestam o poder sem-igual do método científico em separar fato de fantasia, a ideia de que a ciência possa oferecer a descrição mais precisa da condição humana, e assim prover a melhor medida de nossas obrigações morais, é uma noção que muitas poucas pessoas estão preparadas para sequer considerar, muito menos aceitar

... E, pior de tudo, nossa incapacidade de promover as capacidades de pensamento crítico desde as primeiras séries escolares mina nossa habilidade, enquanto seres humanos racionais, de examinar velhas suposições à luz de novas evidências, e de ajustar nosso pensamento de acordo com isso, aspectos que tornam o progresso intelectual e moral possível

Considere a teoria atômica, por exemplo. Mesmo que ninguém tenha realmente visto um átomo, este conceito recebe aceitação universal não somente por causa de seu impressionante registro empírico mas, mais importante, porque muitas poucas pessoas consideram a existência de átomos e quarks pessoalmente ofensiva.
        ...Ainda assim, milhões de americanos sentem-se perfeitamente justificados ao ignorar a evolução, como se eles estivessem escolhendo em um menu de teorias científicas e descartando aquelas que eles pessoalmente consideram desagradáveis... Essa atitude à la carte com relação às ciências em geral, e a evolução, em particular, é inquietantemente comum, e quase que certamente deriva de vieses culturais antigos, que dispensavam o exame crítico em uma população mal informada

Trechos de The way of science: finding truth and meaning in a scientific worldview (O caminho da ciência: encontrando verdade e significado em uma visão de mundo científica, ainda não lançado no Brasil), escrito pelo biomédico Dennis Trumble e publicado pela Prometheus Books em 2013.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O mundo não acabou, mas fomos apresentados à dissonância cognitiva

Nos anos 1950, uma dona de casa americana chamada Dorothy Martin ganhou notoriedade ao afirmar que o mundo acabaria através de uma grande enchente antes do amanhecer do dia 21 de dezembro de 1954. A teoria de Martin, por si só esquisita, ganhou uma conotação ainda mais bizarra quando a mulher revelou a fonte da informação: extraterrestres de um planeta denominado Clarion haviam lhe avisado a respeito do fim do mundo. Os alienígenas foram mais longe, e comunicaram a Dorothy que ela e mais um grupo de pessoas que deveria se juntar a ela (os “verdadeiros crentes”) seriam levados por uma nave extraterrestre e salvos do apocalipse. Muitas pessoas abandonaram seus empregos e suas famílias para se juntar à Dorothy, e a espera pelo fim do mundo – e pela vinda do disco voador – havia começado.
        Leon Festinger, um jovem psicólogo cognitivo, ficou bastante interessado pelo grupo de Martin (ele havia lido sobre o caso em um jornal). Festinger não acreditava que o mundo iria acabar, mas sabia que aquela era uma oportunidade muito boa para se observar e coletar informações a respeito de como as pessoas justificam e adaptam as suas crenças aos fatos. Assim, Festinger estaria atento às justificativas que seriam apresentadas pelos líderes do grupo, especialmente Dorothy Martin, sobre a razão de o mundo não ter acabado como se previa, e nem os extraterrestres aparecido. Festinger se infiltrou no grupo e passou a acompanhar os momentos derradeiros. Uma breve descrição daquilo que Festinger observou nos dias anteriores e posteriores ao esperado apocalipse pode ser lida na Wikipédia:
- antes de 20 de dezembro de 1954: o grupo evita publicidade. O grupo desenvolve um sistema de crenças – obtido do planeta Clarion através de psicografia – para explicar os detalhes do cataclismo, as razões para sua ocorrência, e a maneira pela qual o grupo poderia escapar do desastre
- 20 de dezembro: o grupo espera que um visitante de outro planeta apareça e os acompanhe até uma espaçonave. Para isso, os membros do grupo precisam se desfazer de quaisquer objetos metálicos. As pessoas descartam objetos que possuem peças metálicas e aguardam os alienígenas
- 00h05min de 21 de dezembro: nenhum extraterrestre aparece. Alguém nota que um relógio marca 23h55min, e então o grupo concorda que ainda não é meia-noite
- 00h10min: todos os relógios já marcam meia noite, e ainda nenhum visitante apareceu. O grupo espera em silêncio, pois o cataclismo vai ocorrer em menos de sete horas
- 4h: o grupo está sentado e em completo silêncio. Algumas tentativas de encontrar explicações para o não aparecimento dos alienígenas falham. Martin começa a chorar
- 4h45min: outra mensagem é psicografada por Dorothy Martin. Ela diz que o Deus da Terra decidiu livrar o planeta da destruição. O cataclismo foi cancelado. A explicação: “O pequeno grupo de pessoas, sentado a noite inteira, tinha espalhado tanta luz que Deus decidiu salvar o mundo da destruição”
- tarde de 21 de dezembro: contrariamente ao que ocorria antes, o grupo chama a imprensa. Sua mensagem deve ser espalhada pelo mundo inteiro.
        O final do mundo não ocorreu, como alardeava o grupo de Dorothy Martin. Ao invés de um pedido de desculpas pela besteira ou, pelo menos, de um simples “eu estava enganada” ou “me iludi, isso pode acontecer com qualquer um”, Martin ajustou a sua crença com o inescapável fato de que o mundo continuava como antes. Agora, os aliens haviam avisado que foi a boa energia do grupo da dona-de-casa que tinha salvado o mundo. Se não fosse essa a justificativa usada, certamente outras seriam inventadas.
        Em 1956, Festinger publicou When Profecy Fails, obra que trata da história do grupo de Martin – o autor usou pseudônimos para os personagens: Dorothy Martin virou Marian Keech –, e cunhou o termo que representaria um dos fenômenos mais estudados na psicologia social da segunda metade do século XX: a dissonância cognitiva.
        Experimentamos a dissonância cognitiva quando tentamos sustentar ideias, crenças ou opiniões incompatíveis entre si, ou que não são compatíveis com informações e evidências que recebemos de outras fontes. Assim, um sujeito que joga lixo no chão e se justifica dizendo que os responsáveis pela poluição são as grandes empresas está amarrado pela dissonância cognitiva. Você comprou um aparelho de celular novo, pagou muito caro por ele, mas ele não é tão bom quanto você imaginava que fosse. Aí, um amigo lhe pede sobre a qualidade do celular. Você provavelmente vai elogiar o aparelho, minimizar os defeitos, ou mesmo não reconhecê-los.
        A dissonância cognitiva é utilizada por qualquer pessoa nas mais diversas situações do cotidiano. Esse é um recurso cognitivo absolutamente normal, e sem ele nós provavelmente enlouqueceríamos. No entanto, a dissonância cognitiva pode ser perigosa se nos mantiver em uma situação parecida com a dos seguidores do grupo de Dorothy Martin ou, em um exemplo mais extremo, se nos fizer embarcar em uma viagem sem volta junto ao líder de uma seita, como as mais de 900 pessoas que seguiram Jim Jones à Guiana na década de 1970.
        O filósofo inglês Stephen Law afirmaria que as pessoas que seguiram líderes como Martin e Jones caíram em “buracos negros intelectuais”. Buracos negros intelectuais são sistemas de crença nos quais seus seguidores ficam presos, mesmo que não percebam. Quando confrontados com a realidade (o mundo não acabou!), essas pessoas procuram maneiras de enfrentar os novos fatos sem que seja necessário desfazerem-se de suas crenças anteriores. Uma vez dentro de um buraco intelectual é difícil sair dele, porque a influência de mecanismos psicológicos como a dissonância cognitiva é muito forte.
        Apesar de se aplicarem a determinados cultos religiosos, os buracos negros intelectuais não se restringem a eles. Recentemente, o Ministério Público Federal denunciou algumas empresas por manterem um suposto esquema de pirâmide financeira, não sustentável a longo prazo porque a sua manutenção implica na entrada do dinheiro de novos investidores. Quem, no Facebook, visita a página de qualquer uma das empresas envolvidas no suposto esquema vai encontrar uma série de comentários de seus investidores. É raro encontrar alguém que duvide das empresas. Assim, teorias da conspiração envolvendo políticos, ministros, empresas de telefonia, procuradores de justiça e advogados parecem muito mais plausíveis do que simplesmente admitir que o sujeito foi envolvido em um golpe.



        Stephen Law trata de algumas armadilhas de pensamento em Believing Bullshit: how not to get sucked into an intellectual black hole (Prometheus Books, 2011, sem tradução para o português). Um livro recentemente lançado no Brasil, A Arte de Pensar Claramente: como evitar as armadilhas do pensamento e tomar decisões de forma mais eficaz (Objetiva, 2013), de Rolf Dobelli, traz uma lista de vieses e tendências de pensamento que muitas vezes nos põem em situações complicadas. A dissonância cognitiva é um dos temas tratados nessa obra. Outra boa leitura sobre a dissonância cognitiva e outros vieses psicológicos é Ideias Próprias: como o cérebro distorce a realidade e o engana (Difel, 2008), de Cordelia Fine.


sábado, 10 de agosto de 2013

Conversando com Massimo Pigliucci

O biólogo e filósofo ítalo-americano Massimo Pigliucci é um sujeito de múltiplos interesses. Professor na City University of New York, Pigliucci realiza pesquisas e escreve sobre genética, biologia evolutiva e filosofia da ciência e, além da carreira acadêmica, escreve para o público geral em seu blog, Rationally Speaking, e em sua página na internet, Plato’s Footnote (uma fonte riquíssima em recursos – há artigos, palestras e textos do autor disponíveis para download). Pigliucci é também autor de excelentes livros sobre ciência e filosofia, entre os quais Answers for Aristotle: how science and philosphy can lead us to a more meaningful life, Denying evolution: creationism, scientism, and the nature of science, Tales of the rational: skeptical essays about nature and science, e Nonsense on stilts: how to tell science from the bunk (nenhuma das obras foi publicada no Brasil). O autor, que é também um grande defensor da educação científica contra a superstição e as pseudociências, gentilmente aceitou o convite do blog para falar sobre alguns temas comumente presentes em seus escritos.

Página Virada: O que você está lendo agora?
Massimo Pigliucci: Hitler’s Philosophers, de Yvonne Sherratt (obra ainda não lançada no Brasil), um olhar fascinante a respeito de como os nazistas faziam mau uso da filosofia (por exemplo, de Kant e Nietzsche), mas também sobre como filósofos estavam explicitamente envolvidos com a máquina de propaganda nazista (p. ex., Heidegger). Há muitas boas lições, tanto de história quanto do papel da filosofia, para serem aprendidas neste livro.

PV: Que livros o influenciaram?
MP: Muitos, certamente. Mas acima da maioria estão a Autobiografia de Bertrand Russell, que me introduziu à filosofia quando eu era um adolescente; O Mundo Assombrado Pelos Demônios de Carl Sagan, ainda hoje um dos melhores trabalhos populares sobre pseudociência e pensamento crítico; Investigação Sobre o Entendimento Humano, de David Hume, certamente um dos melhores e mais acessíveis trabalhos de filosofia; Eutífron de Platão, um diálogo curto deliciosamente escrito sobre a relação entre religião e moralidade; Advice to a Young Scientist, de Peter Medawar (obra não lançada no Brasil), que eu li antes de ir à universidade; e um grande número de livros de Stephen Jay Gould, que foi meu modelo intelectual durante os primeiros anos de minha carreira como biólogo evolucionista.

PV: Como o ato de ler pode ser importante para a vida de alguém?
MP: E como não seria? Através da leitura, nós entramos em uma conversa com algumas das melhores mentes que a humanidade produziu através de toda a história registrada. Não há simplesmente nada semelhante a esse tipo de experiência.

PV: Pessoas como Deepak Chopra e Fritjof Capra têm escrito livros sobre ciência e espiritualidade, mas a visão deles a respeito de muitas questões difere em muito do consenso da comunidade científica em diversas áreas. Em sua opinião, o trabalho de autores como Chopra e Capra contribui para disseminar a ciência para o público, ou faz o oposto, confundindo as pessoas e criando uma falsa ideia sobre o que a ciência é?
MP: Não consigo falar coisas ruins o suficiente a respeito de Chopra. Ele é um charlatão que presta um desserviço ao público. Quanto à Capra, não posso fazer melhor que Victor Stenger, quando caracterizou o seu trabalho (e o de Chopra) como “charlatanismo quântico” (quantum quackery) na Skeptical Inquirer.

PV: Algumas pessoas acreditam que há uma razão ou um propósito para tudo o que acontece conosco, e essas razões e propósitos estão ligados a algum tipo de “desejo divino” ou a um “plano espiritual”. Muitas dessas pessoas não podem sequer conceber a ideia de que talvez não exista um deus ou uma recompensa após a morte. Se não existir um deus ou um plano espiritual, alguns deles dizem, não há razão para estarmos aqui, e nossas vidas não têm sentido. O que um filósofo tem a dizer sobre isso?
MP: Creio que essas pessoas cedem ao mais profundo tipo de orgulho: esperar que o próprio universo (ou Deus) deveria se preocupar com o que acontece com eles, senão nada tem valor! Sentido na vida – como eu argumentei em meu Answers for Aristotle (obra ainda não publicada no Brasil, e que será discutida em breve aqui no blog) – vem de dentro, não de fora. Nós construímos sentido a partir de nossos projetos de vida, incluindo nossas relações com outros seres humanos. Por que razão isso não seria suficiente?

PV: Aqui no Brasil, as pessoas frequentemente reclamam da qualidade dos políticos. Sempre lemos a respeito de corrupção, mau uso de recursos públicos, incompetência, administradores que são analfabetos, outros que trabalham para as pessoas de seus partidos políticos, e assim por diante. É possível que os eleitores enfrentem esses problemas pensando criticamente? Como?
MP: Ah, não é só no Brasil. Acredito que esse seja um esporte internacional, e infelizmente os políticos do mundo todo continuam nos dando várias razões para pensar assim. Sim, claro, a educação e o pensamento crítico são ferramentas cruciais para se navegar em um mundo complexo, incluindo o mundo da política. Infelizmente, nós raramente ensinamos o pensamento crítico, e ele não vem naturalmente aos seres humanos. O que você me pergunta é uma questão complexa, e não há uma simples resposta, mas eu aconselharia os seus leitores para que continuem lendo, ampla e criticamente, sem deixarem-se cair em um cinismo auto-destrutivo. É um balanço difícil de manter.

PV: Para aqueles que querem ler boas obras de ciência e filosofia, mas não conhecem muito bem essas áreas, que autores ou livros você recomendaria?
MP: Bem, praticamente os mesmos que eu mencionei na resposta à sua primeira questão, creio. Nós vivemos em uma época em que bons livros a respeito de todo o tipo de assunto estão disponíveis ao pressionar de uma tecla (pelo menos para aqueles de nós que são sortudos o suficiente para serem alfabetizados, terem um conexão com a internet e dinheiro suficiente para investir – o que deixa a maior parte da população mundial de fora!). Então, que usemos essa sorte e a espalhemos: maior grau de instrução no mundo inteiro é um fator importante para enfrentar a pobreza, a violência e a superstição.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Truques da Mente

Há séculos, nossos sistemas de percepção do mundo têm sido enganados de forma proposital por artistas talentosos. Os grandes mestres da pintura sabem como utilizar tonalidades distintas de cores, entre outros recursos, para nos dar a sensação de que estamos vendo uma paisagem em profundidade quando olhamos para uma tela. Produções de cinema usam sons, combinações de luzes, efeitos tridimensionais e animações computadorizadas para dar um ar especial a seus filmes, o que faz com que fiquemos assombrados com a qualidade daquilo que vemos, um espetáculo para nossos olhos e ouvidos. Na verdade, qualquer pessoa que liga um aparelho televisor vai ficar imersa em uma combinação de imagens e sons que irão estimular de tal modo seus sentidos que muitos detalhes passarão despercebidos, como os comuns erros de continuidade em filmes (personagens cujas roupas mudam de cor subitamente, mudanças em objetos no cenário, etc.).
        O francês Ernest Ostrowsky, sua mulher e seu filho também são mestres na arte de enganar nossos sentidos, mas não através de pinturas ou da televisão. A família Ostrowsky é composta por mágicos, e seu mais famoso número, chamado “Omar Pasha”, é uma das apresentações mais impressionantes que eu já vi. “Omar Pasha” é um número de teatro negro, ou seja, um número encenado em um palco totalmente negro, iluminado com luzes negras. No palco, um homem (Omar Pasha) vestido com uma roupa branca, capa vermelha e com um turbante aparece ao som do Bolero de Maurice Ravel. Pasha começa, então, a interagir com o cenário, “desenhando” um grande candelabro com velas vermelhas, usando para isso uma caneta que ele tira do turbante. Para espanto do público, o candelabro de Pasha se transforma em um objeto real, e o homem o levanta, leva para outro lado do cenário e ainda acende as três velas que estão na parte superior do objeto. O truque do candelabro é o primeiro de uma sequência inacreditável, que inclui o surgimento e desaparecimento de objetos grandes como cadeiras, a aparição de pessoas, e até uma decapitação. A primeira pergunta que a maioria das pessoas deve se fazer depois de assistir à apresentação de Omar Pasha é: “como ele faz isso?” E como o público não percebe os truques?
        Famosos mágicos contemporâneos, como os da família Ostrowsky, Penn & Teller, David Copperfield, David Blaine e Criss Angel seguem a tradição dos mestres da magia, como Harry “O Grande” Houdini, um dos maiores da história nessa arte. E, da mesma maneira que Houdini, os melhores mágicos de hoje não podem contar apenas com habilidade manual, rapidez e perspicácia, embora esses sejam requisitos básicos de um grande mágico. Mestres da magia também precisam conhecer como as pessoas reagem aos truques, e de que forma seus sistemas de percepção podem ser ludibriados. Omar Pasha apela a um grande número de estímulos visuais, e a escuridão do cenário é o ponto crucial de toda sua apresentação. Talvez as pessoas que assistem ao número até desconfiem de como ele é realizado, mas os truques se desenrolam com tamanha naturalidade e em um ritmo elaborado de modo a impossibilitar aos espectadores que descubram os segredos de Pasha.

        Os neurologistas Stephen Macknik e Susana Martinez-Conde têm acompanhado os números de mágica há algum tempo, pois pensam que eles podem revelar muito a respeito de como pensamos e vemos o mundo – e de como podemos ser enganados por nossas próprias percepções. As ideias de Macknik e Martinez-Conde sobre a relação entre a mágica e as nossas percepções estão no ótimo Truques da Mente: o que a mágica revela sobre o nosso cérebro (Editora Zahar, 2011). “O que você vê, ouve, sente e pensa se baseia no que espera ver, ouvir, sentir e pensar”, escrevem os autores. E é bom estarmos cientes disso, pois não são somente os mágicos que lucram com nossas fraquezas de percepção.

O teatro de Omar Pasha


O truque do avarento


Um bom acervo de vídeos sobre mágica e neurociência está disponível no site dos autores de Truques da Mente. Para acessá-lo, clique aqui.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Perdendo o futuro

O filósofo Mark Rowlands escreve a respeito da morte em Scifi = scifilo, e discute se ela pode ser ruim por nos privar de algo que almejamos boa parte de nossa vida, e de coisas para as quais dedicamos muitos de nossos esforços. Alguém que tem uma vida orientada para o futuro, argumenta Rowlands, tem o que ele chama de um “futuro forte”. Um sujeito que não investe em seu futuro, e não se preocupa com ele, tem, por sua vez, um “futuro fraco”. Rowlands usa os dois termos para apresentar algumas de suas ideias sobre a morte. O autor, em O Filósofo e o Lobo, obra escrita posteriormente à Scifi = scifilo, descarta boa parte das coisas que escreveu sobre os futuros fraco e forte. A convivência com o lobo Brenin parece ter feito Rowlands reconsiderar a ideia de que a morte não é, por si só, ruim para os animais, indivíduos que ele imaginava possuírem um futuro fraco. O trecho abaixo foi extraído do livro Scifi = scifilo:

A morte é uma coisa ruim porque nos priva de um futuro. Todavia, vemos agora que é possível ter um futuro de duas maneiras diferentes, uma forte e outra fraca. Isto faz diferença para o caráter danoso ou ruim da morte? Seria a morte pior para alguém que possui um futuro forte que para alguém que só tem um futuro fraco?
        Acredito que sim. Alguém que possui um futuro forte, orientando muito de seu comportamento presente e disciplinando muitos de seus desejos presentes rumo a uma concepção de como esta pessoa quer que seu futuro seja, é mais fortemente ligado ao seu futuro que alguém que tem apenas um futuro fraco. Logo, uma pessoa que tem um futuro forte tem mais a perder, ao perder um futuro, que uma pessoa que possui apenas um futuro fraco.
        Se isto não ficou claro, considere o exemplo seguinte: duas pessoas vão às Olimpíadas competir no triatlo. Uma delas treinou por anos, orientou sua vida, organizou seu comportamento e disciplinou seus desejos para atingir esse objetivo. A outra é uma atleta preguiçosa e incapaz que chegou aos jogos olímpicos, vamos supor, através de um erro de identificação. Nenhuma das duas ganha uma medalha. Às vezes falamos que alguém “perdeu” a medalha. Se isto é realmente uma perda, então aparentemente a perda maior é sofrida pela primeira atleta, já que ela organizou sua vida ao redor desta meta. Muito de sua vida foi vivida por causa deste objetivo futuro, que ela não atingiu. Ela tinha claramente mais dela mesma investido em conseguir a medalha que a outra atleta. Logo, sua perda é maior.
        Estou argumentando de maneira semelhante ao prejuízo envolvido em perder um futuro. Quanto mais você tiver investido no futuro, julgando em termos de organização, orientação, disciplinamento e arregimentação de seu comportamento e desejos presentes, mais você perde quando perde tal futuro. Se você tem um futuro num sentido conceitual, ou forte, então, quando você morre você perde mais do que se você possuísse um futuro apenas no sentido fraco, não-conceitual. A morte é um prejuízo maior para aqueles que têm um futuro forte, pois na morte eles perdem mais que aqueles que possuem um futuro apenas fraco.



Extraído de ROWLANDS, M. Scifi = scifilo: a filosofia explicada pelos filmes de ficção científica. Rio de Janeiro: Relume, 2005.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A moralidade nas ações de efeitos mínimos

Francisco de Assis, CEO do grupo ambientalista Companheiros da Terra (CDT), foi sequestrado por um bando de pinguins-imperadores, irritados com a sua campanha em torno do aquecimento global, pois ela está atrapalhando o prazer dos pinguins de viajar de avião por baixos preços e dirigir na neve. Os pinguins descobriram que suas nadadeiras não servem para segurar armas, então preferem um confronto não violento com o CDT. Esperam usar argumentos racionais para persuadir Francisco de que sua organização está equivocada. Contrataram, para isso, Peripatético, um pinguim-rei filósofo, para conversar com Francisco e fazê-lo mudar de ideia.

Peripatético: Sua organização tem um compromisso com o princípio de que todos nós contribuímos para a mudança climática e que somos, portanto, moralmente responsáveis por suas consequências, certo?
Francisco: Sim, Peripatético. Todos temos nossa pegada de carbono, que é a quantidade de gases de efeito estufa que cada indivíduo emite direta e indiretamente. Sabemos que essas emissões contribuem para o aquecimento global produzido pelo homem e pelo pinguim. Sabemos que o aquecimento global causará tamanho impacto ambiental que o sofrimento será sentido no futuro. Por isso, somos todos moralmente responsáveis por esse sofrimento futuro e precisamos tomar medidas para minimizá-lo.
Peripatético: Então, o que você está dizendo é que, se eu parar de usar meu desodorante debaixo das nadadeiras e não voar para ver meus primos no Havaí, menos pessoas sofrerão no futuro?
Francisco: Não, não é isso. Estou dizendo que, se todos nós tentarmos minimizar nossa pegada de carbono, menos pessoas sofrerão no futuro.
Peripatético: Interessante. Será que a minha pegada de carbono é tão relevante que, se não houvesse, teria menos aquecimento global e, portanto, menos sofrimento no futuro?
Francisco: Não. O efeito de um único indivíduo é ínfimo no aquecimento global. Mas, se você multiplicá-lo pela população mundial – mais de 6 bilhões de pessoas –, teremos um efeito grande.
Peripatético: Então, na verdade, se eu continuar fazendo o que faço, viajando de avião e dirigindo na neve, além dos churrascos, não causarei nenhum sofrimento adicional no futuro? Você mesmo admite que o efeito de um único indivíduo no aquecimento global é desprezível, certo? [A plateia de pinguins aplaude calorosamente.]

Peripatético está certo ao sugerir que nenhum indivíduo, isoladamente, é responsável por quaisquer consequências do aquecimento global?


Extraído de STANGROOM, J. O dilema de Einstein: exercite sua inteligência com questões que desafiam o bom senso. São Paulo: Editora Marco Zero, 2011.

sábado, 18 de maio de 2013

Bullspotting: encontrando fatos em uma era de desinformação


O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad defende, entre outras posições polêmicas, que o holocausto não ocorreu da maneira como é comumente descrito nos livros de história. A ideia de Ahmadinejad não deriva de um espírito questionador que busca saber a verdade, mas de uma posição ideologicamente estruturada contra Israel e o povo judeu. Por mais estranha que pareça, a posição do presidente iraniano é compartilhada por alguns grupos em diversos lugares do mundo, inclusive no Rio Grande do Sul. Em nosso estado, uma editora chamada Revisão publicou livros referentes ao holocausto e com temas antissemitas e nazistas. Uma das obras editadas foi Os Protocolos dos Sábios de Sião, uma fraude conspiracionista cuja ideia principal era expor um plano judeu de dominação mundial – um plano falso, obviamente.
   Indivíduos que negam a existência do holocausto como ele tem sido retratado em documentos e livros históricos costumam denominar a si mesmos de “revisionistas”, embora exista um nome melhor para eles: negadores da história. O revisionismo é uma atividade absolutamente válida na história, nas ciências e em qualquer outra área do conhecimento humano. No entanto, quando há um grande número de evidências de que determinado fato ocorreu (no caso do holocausto, somam-se um grande número de documentos, evidências físicas – covas, corpos, campos de concentração –, informações fornecidas por membros do próprio regime nazista, listas de pessoas desaparecidas na época, os testemunhos do Julgamento de Nuremberg, depoimentos de testemunhas que escaparam da morte e de soldados aliados, etc.), e a revisão é feita no sentido de provar que tais eventos nunca aconteceram, o que temos é pura e simplesmente a negação da história.
   A questão da negação do holocausto é tratada com muita propriedade por Loren Collins em Bullspotting: finding facts in the age of misinformation (Prometheus Books, 2012, ainda sem edição no Brasil). Collins é um advogado americano que fundou o blog Barackryphal, no qual rebate as ideias dos “birthers”, pessoas que afirmam que o presidente americano Barak Obama teria nascido no Quênia e, assim, estaria impedido de assumir o seu posto atual, dado que a lei americana não permite que cidadãos nascidos em outros países tornem-se presidentes dos EUA. O tema do local de nascimento de Obama junta-se à questão do holocausto como exemplos de negação da história, rumores infundados e teorias conspiracionistas. Collins vai além, e em seu livro trata também de pseudociência (como a homeopatia e a ufologia) e da pseudo-história (escrevendo sobre Nostradamus, Atlântida, a vinda de chineses à América antes de Colombo, a Terra plana, etc.), discutindo, ao final, sobre os potenciais perigos aos quais alguém se expõe quando se deixa envolver por ideias falsas.
   Ler um texto como o de Collins é algo bastante desejável em uma época como a nossa, na qual o fluxo de informação excede em muito a nossa capacidade de apurar as histórias de maneira criteriosa. No Facebook, por exemplo, somos inundados de pedidos de compartilhamento de fotos, que supostamente irão ajudar crianças; outras pessoas nos encaminham notícias dando conta que a Interpol descobriu um desvio de mais de 500 bilhões de reais em nome de integrantes do PT (é o que diz uma capa falsificada da revista Veja); outros defendem ideias políticas esquisitas, como a redução de cargos de confiança em um órgão público se determinado partido político o assumir (quando uma boa pesquisa na internet seria suficiente para fornecer evidências que tal partido, na verdade, age de maneira oposta). Enfim, duvidar, questionar e buscar a boa informação são formas de defesa contra o mundo de desinformação que nos rodeia. E, quando a desinformação é propositalmente espalhada na internet, defender-se dela é a melhor atitude para escapar da manipulação intelectual.