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sábado, 15 de fevereiro de 2014

A escola não é assassina

Atentem para a seguinte declaração do escritor Ferréz, autor de Capão pecado e Manual prático do ódio, dada no programa Provocações da TV Cultura: “os professores tinham que ser treinados para ter amor pela literatura, porque a escola é uma assassina de leitores, quando ela manda resumir um livro em 20 dias ela assassina qualquer tipo de leitor futuro.”
        Essa afirmação é de um total desconhecimento tanto de educação quanto de formação do leitor. Primeiro porque não é papel da escola fazer com que o aluno goste de literatura, mas sim mostrar a ele tudo que se fez de importante na história da humanidade em matéria de cultura, arte, pensamento. Aí se inserem as obras literárias. Geralmente, é um mundo do qual o educando tenta se afastar de qualquer forma, afinal há outras prioridades na sua vida que ficam a quilômetros de distância do conhecimento. O que é normal. Não é por isso que o professor vai deixar de, pelo menos, dar a oportunidade do jovem conhecer esse mundo. Se não o fizesse, estaria sonegando o acesso ao saber.
        Não é a escola que assassina o leitor. Eu até pensava dessa forma e escrevi um artigo, intitulado “Crônica de uma literatura assassinada”, em que me culpava por supostamente afastar os alunos dos livros. Penso um pouco diferente hoje. Claro que há muitos professores que dão aulas de língua portuguesa e não gostam de literatura. Esses são perigosos. Muitos, porém, como eu, são apaixonados por ela, mas se veem obrigados a solicitar trabalhos porque os alunos não leem de forma nenhuma, a não ser por pressão. E aí vem o segundo ponto, a formação do leitor. Simplesmente há aqueles que têm mais aptidão para gostar de ler e outros não. É o caso do próprio Ferréz. Despertado por leituras de Hermann Hesse, ele acabou buscando outros autores e livros, criando sua rede de escritores preferidos. Nenhuma escola o tirou essa paixão, nenhuma influência de outras pessoas o fez mudar de caminho. Se há assassinos da literatura, elas são os diversos tipos de entretenimento que são mais interessantes do que um livro. O jovem até poderia conciliá-los, mas não o faz, por diversos motivos, entre os quais ouvir pessoas dizerem que cumprir tarefas não é prazeroso e, por isso, não deve ser feito.
        Quando um escritor vem a público fazer uma crítica sem fundamento à escola, mais alunos vão ver nela uma inimiga. Ferréz faz um grande desserviço, ele que é uma espécie de porta-voz da periferia, dos desassistidos da sociedade, até porque também milita na cultura Hip Hop. Ele deveria dizer "molecada, vamos estudar e ler. Se é chato ou não, não importa, o importante é construir conhecimento. Os professores não são inimigos. Se eles pedem para resumir ou falar para a turma sobre um livro chato, é porque esse livro, em algum momento, disse alguma coisa para humanidade e continua dizendo, caso contrário, como muito outras obras, já teria caído no esquecimento. Se vocês não lerem, outros lerão, e terão mais conhecimento do que vocês.”
        Agora, se o conhecimento não é importante, não há nada a fazer. E viva a burrice!

Cassionei Niches Petry – professor e escritor

e-mail: cassio.nei@hotmail.com  blog: http://cassionei.blogspot.com

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A influência da televisão na formação das crianças

Não há qualquer novidade em lermos objeções quanto ao papel de programas televisivos na formação intelectual de crianças. Normalmente, as principais críticas dizem respeito à baixa qualidade da programação oferecida, refletida nos muitos programas de teor erótico ou violento, no linguajar inadequado e nas diversas situações constrangedoras exibidas (como as que podem ser vistas a qualquer minuto em novelas da Globo). O filósofo espanhol Fernando Savater, inspirado nos escritos do americano Neil Postman, apresenta ideias diferentes em O valor de educar (Planeta, 2012). Segundo Savater, o maior malefício que a grande exposição a programas televisivos causa às crianças é a simplificação e o encurtamento de algumas etapas de seu processo de aprendizagem. O texto abaixo é um trecho de O valor de educar, no qual Savater explica com detalhes a sua posição a respeito da influência da TV na formação das crianças:

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Pensar melhor, para refinar nossas ideias e evitar os lugares-comuns

Existem várias respostas a perguntas referentes ao sentido de termos escolas e de educarmos formalmente alguém. Eu tendo a concordar com autores como John Dewey e, principalmente, Matthew Lipman, que defendiam que o objetivo educacional mais importante é nos fazer pensar melhor. Em A filosofia vai à escola (Summus, 1990), Lipman afirma que “nenhuma acusação à educação é mais séria do que a acusação de que ela favorece atitudes acríticas em vez de críticas” – o termo “crítica”, aqui, não deve ser entendido em seu sentido popularmente mais conhecido, como uma apreciação desfavorável ou uma constante busca de erros e de defeitos em alguma ideia. O que Lipman aponta é que escola deveria favorecer atitudes reflexivas, ponderadas, que estejam bem fundamentadas em razões, ou seja, razoáveis (esse é um termo muito usado pelo autor em seus escritos – um sujeito razoável, afirma Lipman, é alguém que faz uso constante da razão).
        A ideia de que a escola deve nos ajudar a pensar melhor não indica que o bom pensamento é um fim em si mesmo. Lipman argumentava que nós deveríamos nos preocupar em pensar melhor para melhorar os nossos julgamentos a respeito das mais variadas ideias às quais somos expostos. O refinamento de nossos julgamentos, conclui o autor, é o caminho mais confiável para termos uma vida melhor (individual e socialmente), considerando que nós costumeiramente agimos de acordo com aquilo que pensamos. Em O pensar na educação (Vozes, 2008), Lipman escreve:

“O objetivo do processo educativo é o de ajudar-nos a formar melhores julgamentos a fim de que possamos modificar nossas vidas de maneira mais criteriosa. Julgamentos não são fins em si mesmos. Nós não experienciamos obras de arte a fim de julgá-las; julgamos estas a fim de sermos capazes de ter experiências estéticas enriquecedoras. Fazer julgamentos morais não é um fim em si mesmo; é um meio de melhorar a qualidade de vida.”

        Pensar bem para formar melhores julgamentos parece ser algo razoável. E, quando se fala em “bom pensamento” nos termos descritos por Lipman – e resumidos nos parágrafos acima –, encontramos na literatura educacional a expressão “pensamento crítico” como seu correlato. Segundo o filósofo norte-americano Harvey Siegel, pensamento crítico é uma expressão que deve ser entendida normativamente como um conjunto de habilidades cognitivas e disposições comportamentais desejáveis para que alguém possa pensar melhor. Entre essas habilidades, por exemplo, estão a capacidade de entender e avaliar argumentos e a de pensar a respeito de seu próprio pensar (metacognição). Entre as disposições, a mais destacada é o chamado “espírito crítico”, ou seja, a inclinação que um sujeito tem a sempre procurar pensar de maneira aprofundada a respeito de algum tema, buscando razões e evidências que orientem o seu pensamento. A respeito do pensamento crítico, Siegel afirma:

“Por causa dessa conexão entre razões e princípios, o pensamento crítico é um pensamento baseado em princípios: devido ao fato que os princípios envolvem consistência, o pensamento crítico é imparcial, consistente e não-arbitrário, e o pensador crítico tanto pensa quanto age de acordo com, e valoriza, a consistência, a justiça e a imparcialidade do julgamento e da ação. O julgamento crítico, baseado em princípios, em sua rejeição da arbitrariedade, inconsistência e parcialidade, pressupõe o reconhecimento da força dos padrões, considerando-os como universais e objetivos, de acordo com os quais os julgamentos devem ser feitos. Em primeira instância, tais padrões envolvem critérios pelos quais os julgamentos podem ser feitos com relação à aceitabilidade de várias crenças, afirmações e ações – ou seja, eles envolvem critérios que permitem a avaliação da robustez e da força das razões que podem ser oferecidas em suporte a crenças, afirmações e ações alternativas”

        Além de ressaltar a importância de critérios para se pensar criticamente, Siegel apresenta um aspecto que eu considero o mais relevante, e difícil de ser atingido, para se pensar criticamente e fazer bons julgamentos: a imparcialidade. Todo ser humano é carregado de ideias, posições ideológicas, visões de mundo, etc. Além dessa carga de informação preconcebida, temos um aparato psicológico bastante eficiente em solidificar nossas crenças e elaborar mecanismos para defendê-las. Por isso é difícil pensar de modo imparcial, considerando somente as razões ou evidências às quais temos acesso, sem incutir nelas qualquer preferência pessoal.
      Consideremos o caso do aquecimento global antropogênico (AGA, também denominado “mudança climática antropogênica”), a ideia de que a atividade humana tem impactado o clima de nosso planeta. Nos Estados Unidos, é comum que um cidadão alinhado ao partido democrata aceite a ideia do AGA, enquanto outro, alinhado ao partido republicano, a rejeite. No entanto, provavelmente a aceitação ou rejeição da ideia do AGA tenha em seu âmago um forte viés ideológico: se o mundo está ficando cada vez mais quente, e se isso se dá devido ao aumento da concentração de gases estufa na atmosfera que, por sua vez, são em sua maioria resultado de atividade industrial, então é sensato que ocorram interferências nos sistemas de produção industrial, especialmente nos países que mais poluem, um cenário visto com maus olhos por um republicano, mas compatível com o pensamento democrata; por outro lado, se o AGA não existe, isso significa que não há nenhuma razão em restringir ou modificar qualquer aspecto da produção industrial, e assim a economia dos grandes países industrializados está a salvo de potenciais danos, em um cenário que agrada aos republicanos muito mais do que aos democratas. Assim, o AGA – que deveria estar somente no âmbito da ciência, pelo menos no que se refere à sua ocorrência (existem evidências para ele? O que diz o consenso científico a respeito do tema?) – acaba se tornando uma discussão carregada de ideologia, e guiada por ela.
        Casos como o do aquecimento global antropogênico e tantos outros (evolução X criacionismo, conspiracionistas que fazem campanhas contra a vacinação, negadores do holocausto, etc.) não nos mostram que é impossível ser imparcial quando ponderamos a respeito de determinada questão. Afinal, depois de toda a discussão que esses assuntos suscitaram, é possível saber para onde a preponderância das evidências aponta, e assim entender quais são as melhores ideias em cada caso (o AGA tem acontecido; a teoria da evolução biológica abrange o que melhor sabemos a respeito de como a vida evoluiu em nosso planeta; as vacinas funcionam, salvam vidas, e devem ser aplicadas conforme tradicionalmente se recomenda; o holocausto aconteceu, e resultou em milhões de pessoas mortas pelos nazistas). Aceitar a preponderância das evidências, mesmo que elas entrem em conflito com nossa visão de mundo, isso é ser imparcial no sentido apresentado por Siegel. A parcialidade, nesse caso, deve estar atrelada às razões e às evidências. "Se existirem boas razões para se aceitar 'A', mas minha visão de mundo está de acordo com 'B', o que fazer?" Se fortes razões existirem, um sujeito imparcial, fazendo um bom julgamento, deve considerar seriamente abandonar a ideia B em favor de A.
        Reli Lipman e Siegel há pouco tempo e, durante a leitura, refleti sobre a maneira pela qual uma série de debates é feita no Brasil. É muito comum encontrarmos chavões no lugar de ideias. Lugares-comuns abundam por aqui, e uma consulta aos comentários postados por leitores em páginas de notícias, ou em redes sociais, demonstra que as pessoas parecem mais empenhadas em atestar que abraçam determinada causa ou ideia do que propriamente a entendem. Se você solicitar a alguém que explique porque ele imagina que o Brasil está sob ameaça de golpe comunista (como algumas pessoas aparentemente propensas a ideias conspiracionisitas acreditam), dificilmente você receberá um conjunto de boas razões para aceitar essa ideia estranha. Igualmente, é provável que faltem bons argumentos para aqueles que costumam brincar com palavras ou expressões politicamente corretas, mas que não conseguem sustentar as suas ideias depois de uma ou duas perguntas pertinentes.
        Criamos uma cultura na qual uma virtude inquestionável é agarrar-se a alguma ideia e defendê-la a qualquer custo de exame externo – uma cultura que se opõe à defendida por autores como Matthew Lipman, por ser incompatível com o bom pensar. Um sujeito que passa a vida inteira repetindo bordões, mesmo sem ter pensado criticamente a respeito deles, é considerado por muitos como um bom exemplo intelectual. A dúvida, ou mesmo o abandono da crença em determinada ideia, não são virtudes bem cotadas entre nós. O filósofo americano Peter Boghossian, em seu corajoso A manual for creating atheists (Pitchstone Publishing, 2013), escreve a respeito dessa questão com muita propriedade:

“Enquanto sociedade, temos considerado como virtude a importância de se acreditar em alguma coisa e de defender nossas crenças. A frase comum ‘defenda aquilo que você acredita’ tem sido tomada como algo positivo – uma virtude que deveria ser aspirada por todos, e uma deficiência moral se não for seguida.
        Se alguém deveria defender ou não aquilo em que acredita, isso depende exclusivamente em 'o que' esse sujeito acredita, e porque ele acredita nisso. Ter uma firme crença não é uma virtude. Nenhuma inferência moral confiável pode ser feita a respeito de um indivíduo baseado na força de sua convicção.”


        Penso que nós todos deveríamos nos esforçar sinceramente para abrir um espaço importante para o pensamento imparcial, para as boas razões e evidências em nossa maneira de interagir com o mundo e sustentar nossos juízos a respeito de qualquer assunto. Pensar bem não implica defendermos a qualquer custo aquilo em que acreditamos, mas demanda honestidade intelectual suficiente para reavaliarmos nossas posições e ideias com base nas melhores evidências disponíveis, deixando um espaço considerável para a possibilidade de estarmos errados. E, no que diz respeito à possibilidade de alguém estar errado, a honestidade intelectual deveria fazer com que todos nós constantemente nos perguntássemos: que tipo de evidência ou razão eu preciso para concluir que determinada ideia – que eu aceito há algum tempo – não é tão boa quanto eu pensava e que, por isso, eu preciso revisá-la? Se existir alguma evidência ou razão que poderia confrontar nossas crenças, e nós estamos dispostos a analisá-la, então estamos desenvolvendo uma atitude que pode nos afastar de dogmatismos e nos conduzir a um pensar melhor.

sábado, 20 de abril de 2013

Salvem os professores!


O jornal Correio Brasiliense trouxe, em sua edição do dia 08 de abril, uma notícia preocupante: quase 40 mil alunos do Ensino Superior que cursavam alguma licenciatura (curso que forma professores para atuação nos Ensinos Fundamental e Médio) desistiram do magistério mesmo antes de terminarem a graduação. No caso de cursos de licenciatura em Física, um terço dos alunos decidiu mudar de rumos, trocando a possibilidade de atuar como professores em escolas pela oportunidade de trabalhar em uma área diferente, e possivelmente melhor remunerada.
   Pense, prezado leitor, por um momento a respeito da seguinte questão: quais são os fatores que levam alguém a escolher determinada profissão? A remuneração? As condições de trabalho? Uma jornada de trabalho adequada? Um ambiente de trabalho tranquilo? O reconhecimento social da importância da profissão? O amor pela profissão? A realização pessoal por se fazer algo que a própria pessoa considera importante? No caso dos professores, penso que somente as duas últimas perguntas podem nos fornecer respostas razoáveis sobre o porque de alguém querer trabalhar em uma escola brasileira.
   Quando ouvimos protestos em favor de melhorias na educação, na maioria das vezes os relacionamos às lutas dos docentes pelo aumento de seus salários. É, obviamente, uma causa mais do que justa, e que ainda não foi atendida plenamente por nenhum governo aqui no Brasil. Além disso, temos que levar em conta que melhorias na educação não passam apenas por incrementos salariais. Há um mundo de coisas para se modificar, e uma análise breve do dia-a-dia dos professores pode nos dar algumas pistas a respeito dos aspectos sobre o quais temos que prestar atenção.
   Um desses aspectos é o escopo de atuação de um docente. Se há algumas décadas, o maior foco do professor era em como discutir os assuntos da aula com seus estudantes, hoje a situação é outra. Um professor, nos dias atuais, não pode se preocupar apenas em trabalhar os temas de suas aulas com os alunos. Ele também se obriga a abraçar problemas que não são, necessariamente, seus. Assim, um professor atua como pai e mãe de um aluno ao apresentar a ele normas básicas de convivência social, de respeito aos professores, colegas e funcionários da escola, e de como agir com um mínimo de civilidade quando se convive com outras pessoas. Tarefas como essa já são por si sós complexas, e ainda há o agravante que, geralmente, o professor não precisa substituir os pais de apenas um aluno, mas de dezenas deles na tarefa de ensinar aspectos fundamentais da vida em sociedade. “E as famílias, onde estão?”, alguém poderia perguntar, e a resposta talvez fosse “muitas delas estão se preocupando com alguma outra coisa”. Para muitos pais e mães, as escolas não passam de creches para adolescentes.
   O professor é, para mim, o mais corajoso dos profissionais. Somente alguém com uma tendência a comportamentos heróicos pode aguentar uma jornada de 40 horas semanais na sala de aula (e outras tantas horas em casa, preparando e corrigindo trabalhos), trabalhando com um número cada vez maior de adolescentes indisciplinados, perdendo a voz, o sossego e, muitas vezes, a paciência. A recompensa é um salário mirrado no final de cada mês, e poucas palavras de agradecimento de pais e mães.
   Sem dúvida, o cotidiano escolar nem sempre apresenta situações como as que eu descrevi acima, e a vida dos professores não é o roteiro de uma tragédia. Mesmo assim, temo que estamos nos encaminhando para uma era na qual os professores são considerados responsáveis por tudo o que ocorre na escola, da nota dos alunos aos conflitos que ocorrem na instituição. Está na hora de exigirmos mais da sociedade, das famílias e dos alunos, e isso não deve ser feito para diminuir a responsabilidade dos professores, mas para redistribuí-la com justiça entre os docentes e os demais sujeitos que participam do cotidiano escolar.

terça-feira, 2 de abril de 2013

O melhor professor que eu já tive


O texto abaixo foi escrito por David Owen e publicado na edição asiática da revista “Seleções” (Reader’s Digest), em abril de 1991. O artigo foi traduzido para o português e está disponível em vários sites na internet, e eu o publico aqui no blog porque ele expõe um dos objetivos mais importantes da educação, que é desenvolver pessoas pensantes e que cultivem o hábito da dúvida.

O senhor Whitson ensinava ciências para a 6ª série. No primeiro dia de aula ele nos falou sobre uma criatura chamada cattywampus, um animal noturno extinto durante a Era do Gelo. Ele passou para os alunos um crânio enquanto falava. Todos nós fizemos anotações e depois respondemos a um teste sobre a aula.
   Quando recebi a prova corrigida fiquei surpreso. Havia um grande e vermelho X em todas as minhas respostas. Eu havia falhado. Devia haver algum engano! Eu havia escrito exatamente o que o professor Whitson havia dito na aula. Então percebi que todos na classe haviam falhado. O que havia acontecido?
   Muito simples, o professor explicou. Ele havia inventado tudo o que falou sobre o cattywampus. Aquele animal nunca havia existido, ou seja, toda a informação em nossas anotações estava errada. Nós esperávamos crédito por respostas erradas?
   Desnecessário dizer, nós ficamos revoltados. Que tipo de teste era esse e que tipo de professor ele era?
   Nós deveríamos ter descoberto, o senhor Whitson disse. Afinal, equanto ele passava o crânio do cattywampus pela sala (que na verdade era o crânio de um gato), não estava afirmando que não havia sobrado nenhuma evidência do animal? Ele havia descrito sua incrível visão noturna, a cor de sua pelagem e muitos outros fatos que ele não poderia saber. Ele havia dado ao animal um nome ridículo e mesmo assim ninguém havia desconfiado. Os zeros em nossas provas iriam para a avaliação, ele disse. E eles foram.
   O professor Whitson disse que esperava que aprendêssemos uma lição dessa experiência. Professores e livros didáticos não são infalíveis. Na verdade, ninguém é. Ele nos disse para nunca deixar nosso cérebro ficar desatento e a tomar satisfação sempre que pensássemos que ele ou qualquer livro estivessem errados.
   Toda aula com o professor Whitson era uma aventura. Ainda posso lembrar de algumas aulas de ciências do começo até o final. Um dia ele nos disse que seu carro era um organismo vivo. Nós demoramos dois dias para bolar um argumento contrário que ele aceitasse. Ele não nos deixava sossegar até que houvéssemos provado não só que sabíamos o que era um organismo, mas também que tínhamos força para defender a verdade.
   Nós levamos nosso recém-adquirido ceticismo para todas as nossas aulas. Isso causou problemas para os outros professores, que não estavam acostumados a serem desafiados. Nosso professor de história começava a falar sobre algum assunto e de repente se ouvia alguém limpando a garganta com força, e alguém dizia “cattywampus”.
   Se alguém me pedisse uma proposta para solucionar os problemas de nossas escolas, ela seria o professor Whitson. Eu não fiz nenhuma grande descoberta científica, mas ele deu a mim e meus colegas de classe algo tão importante quanto: a coragem de olhar outra pessoa no olho e dizer que ela está errada. Ele também nos mostrou que você pode se divertir nesse processo.
   Nem todo mundo vê valor nisso. Uma vez contei sobre o senhor Whitson a um professor de Ensino Fundamental, que ficou horrorizado. “Ele não devia ter enganado você assim”, disse. Eu o olhei nos olhos e disse que ele estava errado.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Educação não pode ser apenas um slogan

No final da década de 1930, enquanto apresentava algumas de suas ideias sobre educação em uma conferência, o filósofo americano John Dewey dedicou um tempo significativo de sua apresentação para discutir duas questões basais: o que é, realmente, “educação”, e quais são as condições necessárias para que possamos rotular algo como sendo, pura e simplesmente, “educação”?
   Dewey preocupava-se com o fato de que a educação estava sendo entendida mais como um slogan do que como uma realidade. Desse modo, era vital discutir e compreender o verdadeiro significado do termo educação, e aquilo que a educação representa, em termos de formação pessoal e profissional, para qualquer pessoa. Podemos estender a ideia de Dewey, e afirmar que uma sociedade que tenha uma noção razoável a respeito do significado, conceitual e prático, de educação, é uma sociedade na qual se valorizam o desenvolvimento pessoal e também as pessoas que auxiliam outras nesse processo, os professores.
   Não sei se existiu outra época em nossa história recente na qual foram realizadas tantas campanhas a favor da educação. O que vemos em canais de televisão, rádio, jornais, revistas e sites na internet é uma verdadeira enxurrada de slogans sobre temas relacionados à vida escolar, que tratam do respeito aos professores, da importância de se manter crianças e adolescentes nas escolas, e da necessidade de encontrarmos respostas para os problemas da educação brasileira. Obviamente, um aspecto positivo dessas campanhas é que elas mantêm as discussões sobre educação na pauta da imprensa e, espero, da sociedade. Mas é importante perguntar: seriam essas campanhas algo mais do que simples slogans?
   Tendo por base a multiplicidade de campanhas cujo objetivo é a boa convivência e o respeito na sociedade (como as campanhas pela segurança no trânsito, pela paz, pelo respeito aos idosos, etc), e a maneira pela qual essas campanhas são realizadas e, principalmente, pelo fato de que boa parte de suas ideias não é realmente incorporada pela maioria de nós, fico temeroso pelo futuro da educação – educação de verdade – no Brasil.
   Encontraremos boas respostas para a educação e, mais do que isso, poderemos ver, de fato, melhorias nas condições de nossas escolas, quando deixarmos de repetir o termo “educação” como um simples slogan, pela força do hábito. Veremos melhores escolas, melhores alunos e melhores professores (com melhores condições de trabalho também) quando sentirmos o quão necessária é a educação para construir um país forte e uma sociedade baseada em valores sólidos. Isso vai acontecer quando nos indignarmos, de verdade, ao perceber que faltam professores em quase metade das escolas estaduais no início do ano letivo, quando nos revoltarmos com o péssimo salário recebido pelos professores, e quando tomarmos como extremo desrespeito o fato de termos escolas pessimamente estruturadas. Esse é o primeiro passo. O próximo é escolhermos bem nossos representantes políticos, observando com cuidado suas propostas – e seu histórico pessoal e profissional – relacionadas à melhoria da situação educacional em nossa cidade, estado e país. Também é essencial fiscalizarmos nossos representantes, nos mantermos informados a respeito do que acontece dentro e fora de nossas escolas, e a cultivar, em nossas casas, um ambiente favorável ao desenvolvimento de valores como o respeito, a empatia e a curiosidade. Sem isso, lamento, continuaremos vivendo em um mundo de ficção, cheio de slogans.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Testes nas escolas e a responsabilização do professor


Nos últimos anos, aqui no Brasil, se discute o que as escolas devem fazer com o resultado de exames como o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), cujo objetivo é “medir a qualidade de cada escola e cada rede de ensino” a partir dos resultados de alguns exames e de taxas de aprovação e evasão escolar. Para alguns, a educação pode ser reduzida a números e avaliações. Assim, se a escola A atingiu o índice de 5.5, ela está em melhores condições que a escola B, que atingiu 5.0 (a escala vai de 0 a 10). A intenção desse tipo de avaliação é nobre, pois a princípio os testes pretendem identificar escolas com maiores deficiências para então encaminhar as soluções adequadas. No entanto, várias armadilhas podem aparecer a partir dos resultados dos testes, e uma delas tem sido vendida com alguma habilidade por “especialistas” em educação (aqueles sujeitos que escrevem sobre educação para revistas semanais, mas nunca pisaram em uma escola de Ensino Básico desde que terminaram o Ensino Médio): a responsabilização de professores pelos resultados obtidos pelas escolas nos exames.
   Os defensores da responsabilização dos professores pelos índices das avaliações institucionais sugerem que os docentes, e somente eles, são os responsáveis pelo desempenho dos estudantes. Com esse raciocínio em mente, se os alunos fazem boas provas, a escola é bem avaliada e seus professores são considerados bons. Caso contrário, é preciso reavaliar o corpo docente, punir professores e até demiti-los.
   Sou professor, mas não sou corporativista. Se existem maus profissionais, é necessário que eles participem de programas de formação ou de quaisquer outras atividades que tenham como objetivo a melhoria de sua atividade docente. E se realmente for constatado que o sujeito não tem condições de estar em uma sala de aula, ele deve ser afastado da escola e procurar outra atividade. O que não consigo entender é a ideia de que os testes dos alunos sejam o principal meio de punir, ou de recompensar, professores.
   Trago o assunto ao blog porque reli, recentemente, alguns trechos de Vida e Morte do Grande Sistema Escolar Americano: como os testes padronizados e o modelo de mercado ameaçam a educação, de Diane Ravitch (Sulina, 2011), um obra importante para se entender muitas das questões atuais da educação. Ravitch é uma crítica do sistema de testes padronizados, e discute o tema em várias passagens de seu livro. Eis uma delas:

“As nossas escolas não irão melhorar se nós continuarmos a focar apenas na leitura e na matemática, enquanto ignoramos os outros estudos que são elementos essenciais de uma boa educação. As escolas que não esperam nada mais de seus estudantes do que o domínio de habilidades básicas não produzirão egressos que estejam prontos para a universidade ou para o mercado de trabalho moderno. Tampouco elas irão produzir homens e mulheres preparados para projetar novas tecnologias, realizar descobertas científicas ou desempenhar feitos de engenharia. Os seus graduados também não estarão preparados para apreciar e agregar às realizações culturais de nossa sociedade ou a compreender e fortalecer sua herança democrática. Sem uma educação compreensiva das artes, nossos estudantes não estarão preparados para as responsabilidades da cidadania em uma democracia, e não estarão equipados para tomar decisões baseados em conhecimento, refletido debate e razão.
   As nossas escolas não melhorarão se nós valorizarmos apenas o que os testes mensuram. Os testes que nós temos hoje proporcionam informações úteis sobre o progresso dos estudantes em leitura e em matemática, mas eles não podem mensurar o que mais importa na educação. Nem tudo o que importa pode ser quantificado. O que é testado pode em última análise ser menos importante do que o que não é testado, como a habilidade de um estudante de encontrar explicações alternativas, levantar dúvidas, buscar o conhecimento por conta própria e pensar de forma diferente. Se nós não valorizarmos os nossos individualismos, perderemos o espírito de inovação, imaginação, investigação e divergência que têm contribuído poderosamente para o sucesso de nossa sociedade em muitos diferentes campos.
   As nossas escolas não irão melhorar se confiarmos exclusivamente nos testes como um meio de decidir o destino de estudantes, professores, diretores e escolas. Quando os testes são um método primário de avaliação e responsabilização, todos se sentem pressionados a elevar os escores, por bem ou por mal. Alguns irão trapacear para obter uma recompensa ou evitar a humilhação... Quaisquer ganhos nos escores dos testes que sejam o resultado apenas de incentivos não significam nada, pois os ganhos que são comprados com dinheiro são fugazes e nada têm a ver com a verdadeira educação.”

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A mercantilização do ensino no Brasil


Nunca tive simpatia por posições políticas extremas. Não penso que o governo deva regular todos os aspectos da vida das pessoas, mas também não concordo com quem afirma que as pessoas devem ser totalmente livres em relação ao Estado. Creio que determinados serviços, como a saúde e a educação, mesmo quando oferecidos por instituições particulares, devem estar sob uma regulação rígida do Estado. Quando tratamos dessas questões, vamos além do que é direito individual e entramos na consideração de interesses da comunidade e do país. É um direito de todos ganhar dinheiro, ter uma boa vida e, também, enriquecer com o trabalho feito. No entanto, não vejo mérito nenhum na ação de alguém que cobra (um valor alto, na maioria dos casos) por um serviço essencial, o executa de modo ruim e consegue manter um altíssimo padrão de vida com o lucro desse serviço mal feito.
        Posso estar vivendo em um mundo paralelo e romântico, mas não consigo aceitar que empresas que lidam com planos de saúde possam patrocinar clubes de futebol ao mesmo tempo em que cobram taxas abusivas de seus usuários e, não raramente, os abandonam ou prestam serviços de baixa qualidade quando os pacientes mais necessitam. Companhias estatais patrocinando clubes de futebol? Isso deveria soar como uma piada de mau gosto, mas é a infeliz realidade por aqui.
        Também não acredito que instituições educacionais possam funcionar como empresas, e colocar como seu objetivo principal o próprio lucro e o de seus acionistas, em detrimento de um serviço educacional de boa qualidade. Enquanto partidários de PT e PSDB derramam acusações uns contra os outros em relação a quem é o culpado pela péssima qualidade da educação brasileira, eles deveriam se abraçar e chorar juntos, já que têm a mesma responsabilidade pela tragédia. Na época de FHC o governo incentivou a abertura de grupos educacionais privados, com regulações muito brandas, e o governo Lula manteve uma política parecida, pouco ou nada fazendo contra os abusos dessas instituições. A situação chegou a ponto de encontrarmos faculdades que permitem que mais de cem alunos compartilhem a mesma sala, uma visão que parece a de um depósito de pessoas, não de uma instituição educacional. Talvez eu esteja cismado com isso, mas não me sujeitaria a uma operação com um médico advindo de tal “enturmação”, e também minha casa não seria elaborada por um engenheiro ou arquiteto que cursou uma instituição na qual a educação e a formação profissional estão em segundo plano.
        Temos um longo caminho pela frente para trabalhar por melhorias na educação, assim como nos demais setores da sociedade. O primeiro passo é conhecer, informar-se, e pensar criticamente para não ser mais um a ser manobrado por parasitas políticos. Aliás, um dos antigos argumentos sobre o porquê da educação brasileira ser tão ruim era justamente esse: um povo desinformado e pouco educado é o sonho de todo vigarista que assume um cargo político, pois assim pode manipular as pessoas e tratar como benefícios tudo aquilo que são suas obrigações. Nesse aspecto, minha impressão é que as coisas não mudaram significativamente nas últimas décadas.

domingo, 23 de dezembro de 2012

O que espero em 2013


Assim como quase todo mundo, cultivo o pensamento mágico de que o próximo ano trará coisas melhores, não somente para mim, minha família e meus amigos, mas para todas as pessoas. Pensamento mágico é algo que não está amparado por nenhuma evidência ou base racional, é somente fé e torcida. E torço muito para que algumas coisas se modifiquem, para melhor, a partir de 2013.
   Minha maior torcida diz respeito aos rumos da educação no Brasil. Vários posts do Página Virada foram dedicados ao tema, e apresentei aqui alguns argumentos que indicam a falta de cuidado do governo e da sociedade com a situação das escolas, dos professores e dos alunos. Sempre entendi a rotina escolar e universitária como partes indispensáveis de um processo de formação e aprimoramento individual. Descuidar da educação, portanto, é menosprezar a capacidade que temos de nos tornarmos melhores através do estudo e da busca do conhecimento.
   O que temos visto no Brasil, infelizmente, não nos dá indícios de que em 2013 as coisas mudem significativamente. Ao invés de nos apoiarmos no pensamento mágico, temos que agir. Penso que a principal responsável pela baixa qualidade da educação brasileira é a nossa própria sociedade, e há duas razões para isso. A primeira delas é que não valorizamos candidatos que tenham na educação uma base de sua plataforma política. Preferimos aqueles que nos prometem asfalto em frente à nossa casa, o empréstimo de máquinas da prefeitura, ou qualquer outro tipo de auxílio semelhante. A segunda é que boa parte das pessoas não consegue compreender a importância da escola na sociedade. Hoje em dia, é lamentável que alguns pais vejam as escolas como uma espécie de “creches” para adolescentes, um lugar para acomodar aqueles que dão trabalho demais em casa. E os professores, quando não são vistos como “cuidadores”, são os substitutos dos pais, aqueles que ensinam as regras básicas de convivência social, respeito ao próximo e postura. Torço para que tudo isso mude, e rápido.
   A torcida pela educação está ligada, de maneira direta, à torcida para que possamos viver em uma sociedade melhor e mais organizada. Isso significa uma sociedade na qual existam pessoas mais tolerantes, mais gentis, mais cooperativas, mais disciplinadas, mais respeitosas e mais questionadoras. Há algo que podemos fazer imediatamente em relação a isso: examinar o modo como levamos a nossa vida, e fazer um bom esforço para melhorar o que for necessário. Lembro o final de O Livro dos Livros, de A. C. Grayling (ainda não publicado no Brasil, infelizmente), e espero que o espírito das palavras do autor acompanhe nosso agir cotidiano, hoje e sempre:

“Devemos perguntar quais os mandamentos a seguir / Ou faríamos melhor em perguntar, a cada um de nós: / Que tipo de pessoa devo ser? / A primeira pergunta assume que existe uma resposta certa / A segunda assume que há várias respostas certas / Se perguntarmos como responder à segunda pergunta, a resposta apresenta-se com outras perguntas: / O que devemos fazer quando vemos outra pessoa a sofrer, a passar necessidades, com medo ou fome? / Quais são as causas justas, que mundo idealizamos para os nossos filhos, para brincarem na rua com segurança? / Há muitas perguntas do gênero, algumas que dispensam resposta, outras a que não temos como responder / Mas quando todas as respostas a todas as perguntas são condensadas, ninguém ouve menos do que isto: / Ama bem, procura o bem em todas as coisas, não faças mal a ninguém, pensa pela tua própria cabeça, sê responsável, respeita a natureza, dá o teu melhor, informa-te, sê amável, sê corajoso: pelo menos, faz um esforço sincero / E a estas dez obrigações, junta mais uma: meus amigos, que sejamos sempre fiéis a nós mesmos e ao melhor das coisas, para que possamos ser sempre fiéis uns aos outros.”

Aproveito a ocasião para agradecer aos amigos que acompanharam o blog em 2012. Que 2013 seja mais um ano de grandes leituras!

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sobre as finalidades da educação


Deitados eternamente em berço esplêndido, nós, brasileiros, ainda não compreendemos o real valor da educação para o desenvolvimento de nosso país, e por isso não nos causa nenhum embaraço perceber que estamos em penúltimo lugar em um ranking que mede o desempenho educacional em 40 países. Não gosto de ver a educação reduzida a números e índices, mas creio que essa avaliação não esteja muito distante da realidade.
   O que acontece em nossas escolas deveria ser motivo de preocupação para todos nós. Infelizmente, parte considerável dos alunos deixa o Ensino Básico sem sequer saber interpretar textos e expressar claramente suas ideias. A concepção que muitas pessoas têm a respeito do papel das escolas também me parece deturpada: para elas, a educação formal serve somente como um meio de treinar indivíduos para o mercado de trabalho. Estamos perdendo a ideia de que a escola é importante para o aprimoramento pessoal dos estudantes através de disciplinas como as artes, a filosofia e a educação física, que abordam aspectos de nossas vidas que o tecnicismo de outras disciplinas não é capaz de tratar. Além disso, mesmo as disciplinas consideradas mais técnicas são consideradas apenas como um meio para se ter sucesso em testes como o vestibular ou o Enem, e não como fontes de conceitos e habilidades que devemos incorporar para o uso em situações cotidianas.
   Em The Meaning of Things (ainda sem edição no Brasil), o filósofo A. C. Grayling fala exatamente disso, no verbete “Educação”:

“Por educação liberal entende-se uma educação que inclua a literatura, a história e a apreciação das artes, e dê a elas um peso igual ao dado a temas científicos e práticos. A educação nessas disciplinas nos abre a possibilidade de viver de modo mais reflexivo e informado, especialmente no que diz respeito à amplitude da experiência e sentimentos humanos... Isso, por sua vez, nos faz entender melhor os interesses, necessidades e desejos dos outros, para que possamos tratá-los com respeito e simpatia, não importa quão diferentes sejam as escolhas que eles fazem ou as experiências que moldaram as suas vidas.”

“... pois o objetivo da educação liberal é produzir pessoas que continuem a aprender depois que sua educação formal terminou; pessoas que pensem,  questionem, e saibam encontrar respostas quando precisarem delas.”

“Aristóteles disse que educamos a nós mesmos para que possamos fazer nobre uso do nosso lazer; essa é uma visão diretamente oposta à crença contemporânea que nós nos educamos para conseguir um emprego. Assim, a visão contemporânea distorce o propósito da educação escolar ao ter como objetivo não o desenvolvimento dos indivíduos como um fim em si mesmo, mas como um instrumento no processo econômico.”

“Acima de tudo, a educação envolve refinar as capacidades para o julgamento e a avaliação; Heráclito comentava que a aprendizagem é somente um meio para um objetivo, que é o entendimento – e entendimento é o valor supremo em educação.”

sábado, 10 de novembro de 2012

Michael Shermer e seu kit de detecção de mentiras

Que tipo de perguntas devemos nos fazer antes de aceitar determinado argumento como verdadeiro? Como saber se algo é real ou não? É possível detectar quando alguém está apresentando informações falsas a respeito de algum assunto?
Michael Shermer, psicólogo e historiador da ciência, aborda os temas acima a partir de seu “kit de detecção de mentiras”, baseado em parte no que Carl Sagan escreveu sobre ciência. O kit de Shermer é formado por dez pontos:
1. Quão confiável é a fonte da afirmação?
2. A fonte faz outras afirmações semelhantes?
3. As afirmações foram verificadas por terceiros?
4. Isso se enquadra no modo de funcionamento do mundo?
5. Alguém já tentou refutar a afirmação?
6. Em que sentido a preponderância das evidências aponta?
7. Aquele que defende a afirmação o faz a partir das regras da ciência?
8. A pessoa que faz a afirmação fornece evidências positivas para ela?
9. A nova teoria leva em consideração tantos fenômenos quanto a antiga?
10. A afirmação está sendo guiada por crenças pessoais?

No vídeo abaixo, apresentado pelo próprio Shermer, você vai conhecer melhor as estratégias para detectar mentiras e falácias para, quem sabe, poder aplicá-las em sua vida cotidiana:

domingo, 4 de novembro de 2012

Por que é importante ler?

Mantemos em nosso blog uma seção chamada “Conversando com...”, na qual entrevistamos destacados pensadores contemporâneos a respeito do que pensam sobre a leitura e o papel dos livros em nossas vidas. Até aqui, conversamos com os filósofos Julian Baggini e Simon Blackburn, com o psicólogo e historiador da ciência Michael Shermer, e com a escritora Nikki Stern. As ideias abaixo são uma síntese do que esses autores pensam sobre a importância da leitura:

- Ler nos estimula a pensar por conta própria, mas com uma ajuda das ideias e insights de pessoas com grande conhecimento sobre determinado tema;
- A leitura expande nossa mente e nos expõe a novas ideias, conhecimentos, lugares e pessoas, além de treinar nossa mente para assumir a perspectiva de outros indivíduos, levando à empatia, uma parte importante da moralidade;
- A leitura fomenta a curiosidade, faz com que as pessoas busquem mais conhecimento. Enquanto formos curiosos, estaremos interessados em aprender sempre novas coisas a respeito da vida;
- Diferentemente do que ocorre quando vemos um filme ou assistimos a algum programa de TV, quando estamos lendo podemos determinar nosso próprio ritmo, parar para refletir sobre aquilo que acabamos de ler ou para deixar nossa imaginação voar. A leitura liberta nossa mente, nos ilumina, nos influencia e é capaz de nos entreter;
- A leitura também é uma terapia. Através da vida de um personagem, nas páginas de um livro, podemos reconhecer nossos sofrimentos, angústias e alegrias, o que pode nos ajudar a entender e a enfrentar momentos difíceis;
- Ler nos ajuda a escrever melhor, a articular melhor as ideias, e nos dá argumentos para participar ativamente de discussões.

Obviamente, há inúmeros outros aspectos positivos da leitura. Tenho afirmado que a leitura é um componente essencial para a formação dos cidadãos e para o exercício da cidadania. Quanto mais sabemos sobre as coisas, menos manipuláveis ficamos, e passamos a entender melhor nosso papel na sociedade. “Leia mais, seja mais”, é o lema de uma campanha recente do Ministério da Cultura. De fato, ler mais é um bom caminho para sermos pessoas cada vez melhores.

Texto publicado no jornal Folha de Sananduva do dia 01 de novembro de 2012

sábado, 27 de outubro de 2012

"A lucidez de Lucélia", por Marcos Kirst

“A lucidez de Lucélia” é o título do texto publicado pelo amigo Marcos Kirst na edição da última sexta-feira do jornal Pioneiro. Kirst assistia à entrevista de Lucélia Santos no programa Roda Viva, na TV Brasil, quando ouviu da atriz algo que chamou a sua atenção:

“Que espécie de sociedade de consumo desejamos, afinal? Os brasileiros, travestidos de consumidores, estão virando cidadãos acéfalos, burros, aculturados, superficiais, ocos. Deveríamos estimular e incentivar o surgimento de uma classe consumidora de cultura. O que eu desejo para as pessoas é isso: mais cultura, mais arte, mais leitura, mais natureza.”

Simpatizo com a ideia da atriz, e também ecoo as palavras de Kirst, a respeito das coisas que os cidadãos de nosso país têm valorizado, que formam uma espécie de espelho daquilo que nós, brasileiros, somos em essência:

“Mas ao mesmo tempo em que gastam e consomem, os integrantes dessa estrondosa maioria de cidadãos (acompanhados pelas demais classes sociais brasileiras) se afastam dos processos de edificação pessoal só possíveis de serem conquistados por meio da educação, da cultura e da arte.”

Somos um reflexo da histórica negligência governamental (e social)  com a educação e o aprimoramento pessoal. Hoje, o que faz as manchetes dos jornais é o desempenho positivo da economia brasileira, o que, por si só, é muito bom. Péssimo é saber que, apesar de nos desenvolvermos economicamente, ainda não conseguimos sair do lamaçal da ignorância e da má-educação, e há poucos indícios de que sairemos dele em breve. Diferentemente disso, creio que há boas chances de as coisas se tornarem ainda piores - isso se realmente for possível vermos algo mais triste que isso ou isso.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Se pecados existem de fato, eis um deles

Por Guilherme

Política, no Brasil, sempre teve um apelo semelhante ao do futebol. Você é seguidor do partido A, então vota nele mesmo que ponham uma pedra como seu candidato. Se você milita pelo partido B ou C, faz o mesmo.
    Ultimamente, a paixão pela política me parece ter maior impacto nas pessoas. Você, que sempre militou pelo partido A porque defendia determinadas causas (alianças políticas entre partidos com programas semelhantes, ou então o combate à corrupção em todas as esferas do poder, por exemplo), começa a dissimular e inventar explicações absurdas quando seu partido, A, vence as eleições e age de maneira exatamente oposta ao que sempre pregava em suas campanhas e em suas cartilhas. Você, bom cordeirinho, passa a ser extremamente seletivo, e peneira as coisas que dizia antigamente até que seu novo discurso seja minimamente condizente com sua prática. Mas não pense que o processo ocorre sem qualquer dor: você também precisa racionalizar e organizar seus mecanismos comportamentais de defesa para explicar, ou pelo menos tentar, como largou de mão aquilo que o caracterizava antes. Explicações como “todo mundo faz”, “é intriga da imprensa”, “é golpe da oposição”, etc., que você sempre execrou em seus adversários, agora são usadas por você. Ah, e também vai precisar negar ter dito muita coisa. E em relação àqueles a quem você chamava de “ladrões” há pouco tempo? Não há problema algum, pois o tempo cura tudo (e não era bem isso que você queria dizer quando usou esse termo).
    A cabeça de um militante político é um terreno tão fértil à manipulação mental quanto a de um seguidor de uma seita. O que Jim Jones fez na década de 1970 poderia muito bem ser repetido hoje, em nome de um partido, de uma causa ou de um líder. Quem já leu A Revolução dos Bichos, de George Orwell, tem uma ideia razoável de como o processo ocorre, com uma lentidão e uma perversidade impressionantes.
    Estou lendo Verdade: um guia para os perplexos (Civilização Brasileira, 2006), de Simon Blackburn, uma discussão sobre se é possível termos conhecimentos sólidos sobre as coisas, ou se devemos encarar a verdade como algo relativo (Blackburn argumenta a favor da primeira opção). O autor cita o filósofo inglês William Clifford, que viveu no século XIX, e já naquela época era uma das vozes que nos advertia sobre o perigo da fé cega – um pecado contra a humanidade, como ele sabiamente afirmava:

“Se um homem, que mantém uma crença que lhe foi ensinada na infância ou imposta mais tarde, rejeita e afasta quaisquer dúvidas que surjam em sua mente sobre ela, propositadamente evita a leitura de livros e a companhia de homens que a questionam ou discutem e encara como ímpias as perguntas que irão perturbá-la – a vida desse homem é um grande pecado contra a humanidade.”

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Coisas de um Brasil brasileiro

Por Guilherme

- “O povo não está preocupado com isso (o mensalão). O povo está preocupado é se o Palmeiras vai cair e se o Fernando Haddad vai ganhar a eleição.” Do ex-presidente Lula, sintetizando com perfeição como o brasileiro pensa e o tipo de coisa que valoriza.

- Chico Xavier foi eleito o “Maior brasileiro de todos os tempos”, recebendo mais de 71% dos votos em uma pesquisa popular. Não discuto os méritos de Xavier, mas para um país que teve pessoas como Carlos Chagas e Santos Dumont, a grande votação de Chico Xavier pode ser um sinal de quanto desconhecemos outros grandes heróis do país.

- Mais de 20% da população brasileira é composta por analfabetos funcionais, ou seja, indivíduos que não conseguem entender direito o que leem. Em números, são mais de 30 milhões de pessoas nessa condição. Muitas delas estão nas universidades.

“Tudo se relaciona”, escreveu Robert Pirsig em Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, ao afirmar que a conduta das pessoas em diferentes circunstâncias do cotidiano era um indicativo de seu caráter e do tipo de pessoa que cada um de nós é. A ideia de Pirsig se aplica, perfeitamente, também à sociedade. Tudo, de fato, se relaciona.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Ambientes digitais, nossos cérebros e os solitários repletos de "amigos"

Por Guilherme

A neurocientista britânica Susan Greenfield esteve recentemente no Brasil, palestrando no programa Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre e em São Paulo sobre a influência das novas mídias em nossos cérebros. De acordo com ela, o fato de estarmos expostos a uma enorme quantidade de informações na rede pode fazer com que nos tornemos indivíduos “multitarefa”, fazendo muitas coisas em pouco tempo, mas prestando pouca atenção nas tarefas que desempenhamos e sendo superficiais nos assuntos que estudamos. Greenfield afirma que é possível que os escores em testes de QI das futuras gerações aumentem em decorrência do uso dessas novas tecnologias (Michael Shermer afirma a mesma coisa), mas que estamos perdendo muito com o uso excessivo delas.
    Para entender um pouco melhor o ponto de vista da neurocientista, recomendo a leitura de uma entrevista concedida por ela à revista Veja. Também recomendo atenção ao vídeo abaixo, uma apresentação da psicóloga Sherry Turkle, autora de Alone Together: why we expect more from technology and less from each other (algo como Sozinhos Juntos: por que esperamos mais da tecnologia do que uns dos outros, obra ainda não lançada no Brasil, mas que será tema de um post aqui no blog em breve). Turkle afirma que a tecnologia está nos tornando mais distantes dos outros e criando pessoas cheias de “amigos virtuais”, mas sem ninguém para trocar ideias pessoalmente.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Uma boa educação

Por Guilherme

Encerrando seu ótimo Ensine Ciência a Seu Filho (JSN, 2011), Michael Shermer cita o poeta e ensaísta inglês Joseph Addison, em uma passagem sobre educação. Se nós todos tivéssemos essa mesma percepção sobre a importância e a influência da educação em nossa vida, estaríamos a caminho de um mundo ideal.

“A educação é uma companhia que nenhuma infelicidade pode abater, nenhum crime pode destruir, nenhum inimigo pode alienar, nenhum despotismo pode escravizar. Em casa é um amigo, no exterior uma introdução, na solidão um consolo, e na sociedade um ornamento. Ela castiga o vício, guia a virtude e dá, de uma vez, graça e governo ao gênio. Sem ela, o que é um homem? Um escravo esplêndido, um selvagem dotado de razão.”

terça-feira, 17 de julho de 2012

Rápido, em direção ao abismo

Por Guilherme

Sempre ouvimos que uma grande nação se faz com pessoas educadas e instruídas. Não é coincidência que países como a Noruega, Finlândia, Dinamarca, Canadá, Austrália e Nova Zelândia tenham índices de desenvolvimento humano e econômico muito melhores do que os de lugares como o Brasil. Estamos longe de ser um país desenvolvido como as nações citadas acima, e isso acontece porque não damos o mínimo valor à educação e ao desenvolvimento pessoal.
        Ontem, alguns dos principais jornais brasileiros divulgaram resultados assustadores de uma pesquisa sobre alfabetismo: cerca de 38% dos estudantes universitários brasileiros têm grandes dificuldades de entendimento das coisas que leem. Analfabetos funcionais, essas pessoas, estudantes do Ensino Superior brasileiro, são incapazes de entender e interpretar um texto.
        Várias coisas podem ser inferidas a partir desses dados: a) muitos estudantes saem do Ensino Básico praticamente analfabetos, e assim continuam a vida inteira; b) o ingresso no Ensino Superior é muito fácil, de modo que qualquer aluno, mesmo que semi-letrado, consegue entrar para uma faculdade; c) a qualidade de muitas instituições de Ensino Superior brasileiras é precaríssima: como pode um aluno que mal sabe ler conseguir um diploma universitário?; d) que tipo de profissionais estão (e estarão) no mercado de trabalho?
        Que ninguém fique surpreso com isso. Creio que a fragilidade de nosso sistema educacional é histórica, mas poucos têm feito algo para melhorar a estrutura da educação no país em tempos recentes. Pelo contrário: nossos últimos ministros da educação têm aberto o caminho para as infames “fábricas de diplomas”, instituições sem o mínimo de estrutura e políticas educacionais decentes, mas que faturam milhões de reais anualmente, fazendo da educação um negócio extremamente lucrativo no Brasil. Há também a questão do descaso com os professores, que recebem parcos salários e têm condições de trabalho abaixo do desejado, carregando sozinhos a tarefa de educar aqueles que sequer recebem atenção dos próprios pais. E o Ensino Básico, desde sempre, abandonado.
        Também não posso deixar de mencionar a falta de valorização da educação e da cultura no Brasil. Hoje, a falta de estudo e o desinteresse pela busca do conhecimento se tornaram virtudes. Se você quiser ser político um dia, arme um discurso do tipo “venci na vida sem ter estudado e sem querer aprender nada de novo, e isso nunca me fez falta”, e o seu sucesso estará encaminhado, pode ter certeza disso. Afinal, em um país no qual seus principais líderes fazem questão de afirmar que ler “dá azia” ou que têm “uma preguiça disgramada de ler”, você também poderá ser aclamado um herói.

Clique aqui e leia a matéria do Estadão sobre a pesquisa citada no texto.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Sobre educação

Por Guilherme

- Na revista Seleções do mês de julho há uma reportagem sobre as escolas na Finlândia, uma das nações com melhor nível educacional do mundo. Salas de aula com poucos alunos, professores qualificados e bem remunerados, escolas públicas administradas por professores (e não empresários, nem políticos) e um interesse genuíno do povo e do governo pela educação são alguns dos segredos do sucesso finlandês. Creio que a tudo isso também é possível acrescentar um povo bastante culto, que realmente entende o papel da educação e da cultura na manutenção de uma sociedade organizada e avançada. Para ler a reportagem completa, clique aqui.

- O jornal britânico The Guardian divulgou, no último dia 12, os resultados de uma pesquisa que relacionou os investimentos em educação e qualificação pessoal feitos há um século com os índices econômicos de diversas cidades atualmente. Como se podia imaginar, locais nos quais havia uma política educacional forte há mais de um século são hoje cidades economicamente robustas. Do mesmo modo, cidades economicamente vulneráveis hoje são aquelas nas quais não houve investimento forte em educação. A mensagem é clara: lugares nos quais a educação e a cultura são valorizadas tendem a se tornar lugares melhores para se viver no futuro, pois têm uma população mais esclarecida e com um senso mais apurado de cidadania. Para ler a matéria do The Guardian (em inglês), clique aqui.

sábado, 19 de maio de 2012

A Lei de Cambpell na prática?

Por Guilherme

Em um post anterior, escrevi sobre Vida e Morte do Grande Sistema Escolar Americano (Sulina, 2011), de Diane Ravitch, uma aula sobre políticas educacionais escrita por uma das maiores especialistas no assunto.
    Há inúmeros pontos interessantes no livro de Ravitch, mas vou destacar apenas um neste post pois penso que o momento é propício para isso. Ravitch cita Donald Campbell, criador de um aforismo bastante conhecido no campo das ciências sociais, e que se aplica perfeitamente na questão das avaliações educacionais e dos índices que delas resultam.
      De acordo com a Lei de Campbell:
“Quanto mais qualquer indicador social quantitativo for usado para tomada de decisões sociais, mais ele será sujeito a pressões corruptoras e mais apto ele estará para distorcer e corromper os processos sociais que ele deve monitorar.”

      Resumindo a conversa: se os índices de reprovação diminuírem no Rio Grande do Sul nos próximos anos, devemos interpretar isso como a) uma melhora no ensino gaúcho; b) uma diminuição no nível de exigência dos professores; c) a solicitação, por parte do governo, de um regime de aprovação facilitado; ou d) uma maquiagem nos dados, para que a situação não pareça tão feia.