sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O que nos faz bons ou maus

A discussão sobre como os comportamentos relacionados à moralidade aparecem nos seres humanos é antiga. Muitos filósofos do século XVII, especialmente John Locke, adotavam a ideia de seres humanos como “tabulas rasas”, ou seja, a concepção de que as pessoas nasciam sem qualquer conhecimento ou tendência comportamental, e que as suas experiências com outras pessoas e com o restante do mundo seriam os aspectos que determinariam como os indivíduos iriam agir. Nessa visão, os seres humanos seriam papéis em branco prontos para serem escritos pelo meio social. Em épocas posteriores, em especial nos séculos XIX e XX, ganhou força entre alguns estudiosos do comportamento humano a ideia de que a maior parte de nossa conduta é inata, predeterminada biologicamente, e assim o ambiente teria pouca ou nenhuma influência sobre como nos comportamos.
        Estudos recentes sugerem que não somos geneticamente bons ou maus, e tampouco somos folhas em branco à espera de preenchimento. O psicólogo canadense Paul Bloom, em O que nos faz bons ou maus (Editora BestSeller, 2014, R$ 30,00) sugere que nós já temos um senso moral quando bebês, mas isso não significa dizer que temos um impulso inato para fazer coisas boas ou ruins. O senso moral ao qual o autor se refere é uma capacidade de fazer apreciações morais, de entender quando alguém agiu bem ou mal em determinada situação. Por exemplo, existem estudos que indicam que bebês de menos de um ano de idade preferem interagir com pessoas que se comportaram “bem” (pessoas que não estragaram uma brincadeira, ou que não roubaram objetos de outras – tudo isso parte de experimentos conduzidos por psicólogos, e observados pelos bebês) a aquelas que tiveram um comportamento que se pode considerar inadequado (receber uma bola em uma brincadeira e, ao invés de devolvê-la a quem a jogou, fugir com ela, por exemplo).
        O senso moral que temos quando somos bebês, afirma Bloom, vai sendo refinado ao longo de nossas vidas. A “moralidade aprimorada” é uma característica dos seres humanos, que podem pensar a respeito das mais diversas questões morais e, racionalmente, encontrar o curso de ação mais sensato quando confrontados com uma dessas questões. Por exemplo, Bloom afirma que muitas pessoas – inclusive crianças – que decidiram se tornar vegetarianas assim o fizeram porque entenderam que existiam boas razões morais para isso (como o sofrimento dos animais durante o processo de criação e abate). Assim, a ideia de que a razão é “escrava das paixões” não é sempre verdadeira.

        Creio que a mensagem mais importante do livro de Bloom é a de que podemos usar nossa capacidade mental para reconsiderar a maneira com que nos relacionamos com outras pessoas e animais para, assim, agir e pensar melhor. Há pouco mais de um século, muitas sociedades toleravam pessoas brancas “possuírem” escravos negros; homens e mulheres eram queimados em fogueiras por serem considerados feiticeiros; pessoas eram punidas com a extirpação de partes do corpo, ou com a morte, por causa de adultério. Evoluímos culturalmente porque pensamos melhor a respeito dessas e de outras questões, e mudamos nossas ações como consequência disso. E podemos também supor que teremos uma sociedade cada vez melhor se continuarmos tendo a razão como guia.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A escola não é assassina

Atentem para a seguinte declaração do escritor Ferréz, autor de Capão pecado e Manual prático do ódio, dada no programa Provocações da TV Cultura: “os professores tinham que ser treinados para ter amor pela literatura, porque a escola é uma assassina de leitores, quando ela manda resumir um livro em 20 dias ela assassina qualquer tipo de leitor futuro.”
        Essa afirmação é de um total desconhecimento tanto de educação quanto de formação do leitor. Primeiro porque não é papel da escola fazer com que o aluno goste de literatura, mas sim mostrar a ele tudo que se fez de importante na história da humanidade em matéria de cultura, arte, pensamento. Aí se inserem as obras literárias. Geralmente, é um mundo do qual o educando tenta se afastar de qualquer forma, afinal há outras prioridades na sua vida que ficam a quilômetros de distância do conhecimento. O que é normal. Não é por isso que o professor vai deixar de, pelo menos, dar a oportunidade do jovem conhecer esse mundo. Se não o fizesse, estaria sonegando o acesso ao saber.
        Não é a escola que assassina o leitor. Eu até pensava dessa forma e escrevi um artigo, intitulado “Crônica de uma literatura assassinada”, em que me culpava por supostamente afastar os alunos dos livros. Penso um pouco diferente hoje. Claro que há muitos professores que dão aulas de língua portuguesa e não gostam de literatura. Esses são perigosos. Muitos, porém, como eu, são apaixonados por ela, mas se veem obrigados a solicitar trabalhos porque os alunos não leem de forma nenhuma, a não ser por pressão. E aí vem o segundo ponto, a formação do leitor. Simplesmente há aqueles que têm mais aptidão para gostar de ler e outros não. É o caso do próprio Ferréz. Despertado por leituras de Hermann Hesse, ele acabou buscando outros autores e livros, criando sua rede de escritores preferidos. Nenhuma escola o tirou essa paixão, nenhuma influência de outras pessoas o fez mudar de caminho. Se há assassinos da literatura, elas são os diversos tipos de entretenimento que são mais interessantes do que um livro. O jovem até poderia conciliá-los, mas não o faz, por diversos motivos, entre os quais ouvir pessoas dizerem que cumprir tarefas não é prazeroso e, por isso, não deve ser feito.
        Quando um escritor vem a público fazer uma crítica sem fundamento à escola, mais alunos vão ver nela uma inimiga. Ferréz faz um grande desserviço, ele que é uma espécie de porta-voz da periferia, dos desassistidos da sociedade, até porque também milita na cultura Hip Hop. Ele deveria dizer "molecada, vamos estudar e ler. Se é chato ou não, não importa, o importante é construir conhecimento. Os professores não são inimigos. Se eles pedem para resumir ou falar para a turma sobre um livro chato, é porque esse livro, em algum momento, disse alguma coisa para humanidade e continua dizendo, caso contrário, como muito outras obras, já teria caído no esquecimento. Se vocês não lerem, outros lerão, e terão mais conhecimento do que vocês.”
        Agora, se o conhecimento não é importante, não há nada a fazer. E viva a burrice!

Cassionei Niches Petry – professor e escritor

e-mail: cassio.nei@hotmail.com  blog: http://cassionei.blogspot.com

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Qual é a sua teoria da conspiração preferida?

No dia 21 de julho de 1969, os astronautas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins entraram para a história como os primeiros seres humanos a chegarem à superfície da Lua. Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua (e lá proferiu a lendária sentença “um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”), seguido por Aldrin, enquanto Collins não saiu do módulo lunar da Apollo 11. Depois de Armstrong e Aldrin, outros dez astronautas caminharam na Lua, em outras missões Apollo. No total, 24 pessoas viajaram até nosso satélite natural, em operações muito bem documentadas, registradas em áudio e vídeo, e que envolveram um grande número de pessoas. Os astronautas também trouxeram amostras de rochas e de solo lunares, e parte desse material está exposto em museus de diversos países do mundo.
        O grande volume de evidências de que fomos até a Lua, no entanto, não parece ter sido suficiente para convencer algumas pessoas da veracidade desse fato. De acordo com uma pesquisa feita em 2001 pelo Instituto Gallup, 6% dos americanos – o que corresponderia a cerca de 20 milhões de habitantes dos EUA – afirmaram que a ida do homem à Lua não passa de uma fraude. Em outros países, a desconfiança é ainda maior. Essas pessoas sustentam a ideia de que houve uma conspiração tramada pelo governo americano em parceria com estúdios e diretores de cinema para enganar a população, que ingenuamente acreditou que os vídeos transmitidos pela NASA tinham sido feitos pelos astronautas na Lua, quando na verdade eles foram filmados em um estúdio no deserto americano.
        As teorias da conspiração fazem parte do imaginário humano há muito tempo. No século XX, por exemplo, acompanhamos uma infinidade de ideias “alternativas” que tomaram forma, e fizeram muitas pessoas acreditarem que governos e sociedades secretas sempre tentavam manipular as informações que chegavam até a população. Assim, muita gente foi levada a crer que o governo americano esconde alienígenas em bases aéreas secretas, que Lee Harvey Oswald não matou Kennedy, que a AIDS foi uma doença criada por laboratórios farmacêuticos para matar pessoas na África, e que Obama nasceu no Quênia e, por isso, não poderia ser presidente dos EUA (é necessário que a pessoa tenha nascido nos Estados Unidos para ser presidente deste país). E, claro, muitos também acreditam que o homem não foi à Lua.
        No Brasil, algumas teorias da conspiração ganharam espaço nos últimos dois anos. Durante os protestos que sacudiram nosso país em junho e julho de 2013 surgiram, nas redes sociais, ideias mirabolantes que indicavam que as manifestações populares abririam espaço para um golpe militar aos moldes do de 1964. Obviamente, entre os manifestantes existiam aqueles que clamavam pela volta dos militares, mas esses eram a minoria, e não representavam os desejos da esmagadora maioria das pessoas que saíram às ruas de todo o Brasil, uma maioria composta por cidadãos comuns cansados de tantos problemas nas áreas da saúde, educação, transporte público, segurança, etc.
        Esse ano, um novo tipo de conspiracionista apareceu, e ele se opõe ideologicamente ao conspiracionista de 2013. O novo conspiracionista é aquele que imagina que ocorrerá um “golpe comunista” no Brasil em 2014. Quais são as evidências disso? Nenhuma, somente um amontoado de ideias soltas, que tentam ser amarradas para que o sujeito consiga apresentar algumas razões para sustentar sua pré-concebida conclusão.
        Obviamente, governos escondem muitas informações do público, e existem, sim, grupos e empresas que têm grande influência sobre as sociedades humanas. E, claro, nem toda teoria aparentemente conspiratória se mostra uma fraude (o caso Watergate, na década de 1970, é um bom exemplo disso). No entanto, não é razoável abraçar uma ideia quando não existem boas evidências para ela ou, ainda, quando existe um bom volume de evidências contrárias. Dizer que o Brasil esteve próximo de um golpe militar em 2013, e que caminha para um golpe comunista em 2014, é ser guiado por preferências ideológicas no lugar da razão e do bom senso. E é assim que as ideias conspiratórias se mantêm: o indivíduo estabelece uma conclusão, busca algumas ideias para fundamentá-la, e descarta tudo aquilo que contradiz o seu pensamento.
        O que temos que temer quando somos inundados por ideias conspiratórias não é o conteúdo delas em si, mas a falta de pensamento crítico em uma sociedade que as deixa florescer. Pensar com mais clareza – e estar atento às evidências – nos protege de uma série de armadilhas e de problemas, como aceitar teorias conspiratórias e outras tantas ideias que são potencialmente prejudiciais a nós.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Devo comer carne?

Os arquivos filosóficos (Martins Fontes, 2010), de Stephen Law, é uma obra preciosa para quem gosta de pensar nas chamadas grandes questões da vida. Perguntas como “Deus existe?”, “De onde vem o certo e o errado?”, “Será que é possível pular no mesmo rio duas vezes?” são apresentadas e discutidas por Law em um estilo muito prazeroso de se ler, livre de jargão técnico e fácil de ser entendido mesmo por quem nunca leu qualquer texto filosófico.
Apresento abaixo a parte inicial do primeiro capítulo do livro, no qual Law discute aquele que é considerado um dos maiores problemas éticos contemporâneos por autores como Peter Singer e Mark Rowlands: o uso de animais em nossa alimentação. A questão “por que é errado matar e comer animais humanos, mas não é errado matar e comer animais não-humanos?”, afinal, não admite uma resposta tão simples como a maioria de nós é tentada a pensar.


Devo comer carne? (de Os arquivos filosóficos)

A história de Errol, o explorador

Errol era um explorador. Adorava navegar pelos mares em busca de novas terras.
        Em uma de suas viagens para o norte, não muito longe de onde começam as geleiras, ele descobriu uma pequena ilha montanhosa coberta por uma floresta. Decidiu abandonar a tripulação no navio e, a bordo de um pequeno bote, remou sozinho até a praia.
        Errol levou provisões consigo: limonada e sanduíches. Naquela noite, dormiu à beira-mar em uma rede que pendurou entre dois grandes pinheiros.
        No dia seguinte, Errol entrou na floresta. Após mais ou menos uma hora de caminhada, começou a ver sinais de vida humana. Havia clareiras na mata e áreas de queimadas que lembravam antigas fogueiras de acampamentos. Errol ficou animado com a perspectiva de descobrir uma nova tribo.
        Finalmente, depois de sete horas, chegou a uma clareira maior. Nela, havia três pessoas vestidas de maneira estranha.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A influência da televisão na formação das crianças

Não há qualquer novidade em lermos objeções quanto ao papel de programas televisivos na formação intelectual de crianças. Normalmente, as principais críticas dizem respeito à baixa qualidade da programação oferecida, refletida nos muitos programas de teor erótico ou violento, no linguajar inadequado e nas diversas situações constrangedoras exibidas (como as que podem ser vistas a qualquer minuto em novelas da Globo). O filósofo espanhol Fernando Savater, inspirado nos escritos do americano Neil Postman, apresenta ideias diferentes em O valor de educar (Planeta, 2012). Segundo Savater, o maior malefício que a grande exposição a programas televisivos causa às crianças é a simplificação e o encurtamento de algumas etapas de seu processo de aprendizagem. O texto abaixo é um trecho de O valor de educar, no qual Savater explica com detalhes a sua posição a respeito da influência da TV na formação das crianças:

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Pensar melhor, para refinar nossas ideias e evitar os lugares-comuns

Existem várias respostas a perguntas referentes ao sentido de termos escolas e de educarmos formalmente alguém. Eu tendo a concordar com autores como John Dewey e, principalmente, Matthew Lipman, que defendiam que o objetivo educacional mais importante é nos fazer pensar melhor. Em A filosofia vai à escola (Summus, 1990), Lipman afirma que “nenhuma acusação à educação é mais séria do que a acusação de que ela favorece atitudes acríticas em vez de críticas” – o termo “crítica”, aqui, não deve ser entendido em seu sentido popularmente mais conhecido, como uma apreciação desfavorável ou uma constante busca de erros e de defeitos em alguma ideia. O que Lipman aponta é que escola deveria favorecer atitudes reflexivas, ponderadas, que estejam bem fundamentadas em razões, ou seja, razoáveis (esse é um termo muito usado pelo autor em seus escritos – um sujeito razoável, afirma Lipman, é alguém que faz uso constante da razão).
        A ideia de que a escola deve nos ajudar a pensar melhor não indica que o bom pensamento é um fim em si mesmo. Lipman argumentava que nós deveríamos nos preocupar em pensar melhor para melhorar os nossos julgamentos a respeito das mais variadas ideias às quais somos expostos. O refinamento de nossos julgamentos, conclui o autor, é o caminho mais confiável para termos uma vida melhor (individual e socialmente), considerando que nós costumeiramente agimos de acordo com aquilo que pensamos. Em O pensar na educação (Vozes, 2008), Lipman escreve:

“O objetivo do processo educativo é o de ajudar-nos a formar melhores julgamentos a fim de que possamos modificar nossas vidas de maneira mais criteriosa. Julgamentos não são fins em si mesmos. Nós não experienciamos obras de arte a fim de julgá-las; julgamos estas a fim de sermos capazes de ter experiências estéticas enriquecedoras. Fazer julgamentos morais não é um fim em si mesmo; é um meio de melhorar a qualidade de vida.”

        Pensar bem para formar melhores julgamentos parece ser algo razoável. E, quando se fala em “bom pensamento” nos termos descritos por Lipman – e resumidos nos parágrafos acima –, encontramos na literatura educacional a expressão “pensamento crítico” como seu correlato. Segundo o filósofo norte-americano Harvey Siegel, pensamento crítico é uma expressão que deve ser entendida normativamente como um conjunto de habilidades cognitivas e disposições comportamentais desejáveis para que alguém possa pensar melhor. Entre essas habilidades, por exemplo, estão a capacidade de entender e avaliar argumentos e a de pensar a respeito de seu próprio pensar (metacognição). Entre as disposições, a mais destacada é o chamado “espírito crítico”, ou seja, a inclinação que um sujeito tem a sempre procurar pensar de maneira aprofundada a respeito de algum tema, buscando razões e evidências que orientem o seu pensamento. A respeito do pensamento crítico, Siegel afirma:

“Por causa dessa conexão entre razões e princípios, o pensamento crítico é um pensamento baseado em princípios: devido ao fato que os princípios envolvem consistência, o pensamento crítico é imparcial, consistente e não-arbitrário, e o pensador crítico tanto pensa quanto age de acordo com, e valoriza, a consistência, a justiça e a imparcialidade do julgamento e da ação. O julgamento crítico, baseado em princípios, em sua rejeição da arbitrariedade, inconsistência e parcialidade, pressupõe o reconhecimento da força dos padrões, considerando-os como universais e objetivos, de acordo com os quais os julgamentos devem ser feitos. Em primeira instância, tais padrões envolvem critérios pelos quais os julgamentos podem ser feitos com relação à aceitabilidade de várias crenças, afirmações e ações – ou seja, eles envolvem critérios que permitem a avaliação da robustez e da força das razões que podem ser oferecidas em suporte a crenças, afirmações e ações alternativas”

        Além de ressaltar a importância de critérios para se pensar criticamente, Siegel apresenta um aspecto que eu considero o mais relevante, e difícil de ser atingido, para se pensar criticamente e fazer bons julgamentos: a imparcialidade. Todo ser humano é carregado de ideias, posições ideológicas, visões de mundo, etc. Além dessa carga de informação preconcebida, temos um aparato psicológico bastante eficiente em solidificar nossas crenças e elaborar mecanismos para defendê-las. Por isso é difícil pensar de modo imparcial, considerando somente as razões ou evidências às quais temos acesso, sem incutir nelas qualquer preferência pessoal.
      Consideremos o caso do aquecimento global antropogênico (AGA, também denominado “mudança climática antropogênica”), a ideia de que a atividade humana tem impactado o clima de nosso planeta. Nos Estados Unidos, é comum que um cidadão alinhado ao partido democrata aceite a ideia do AGA, enquanto outro, alinhado ao partido republicano, a rejeite. No entanto, provavelmente a aceitação ou rejeição da ideia do AGA tenha em seu âmago um forte viés ideológico: se o mundo está ficando cada vez mais quente, e se isso se dá devido ao aumento da concentração de gases estufa na atmosfera que, por sua vez, são em sua maioria resultado de atividade industrial, então é sensato que ocorram interferências nos sistemas de produção industrial, especialmente nos países que mais poluem, um cenário visto com maus olhos por um republicano, mas compatível com o pensamento democrata; por outro lado, se o AGA não existe, isso significa que não há nenhuma razão em restringir ou modificar qualquer aspecto da produção industrial, e assim a economia dos grandes países industrializados está a salvo de potenciais danos, em um cenário que agrada aos republicanos muito mais do que aos democratas. Assim, o AGA – que deveria estar somente no âmbito da ciência, pelo menos no que se refere à sua ocorrência (existem evidências para ele? O que diz o consenso científico a respeito do tema?) – acaba se tornando uma discussão carregada de ideologia, e guiada por ela.
        Casos como o do aquecimento global antropogênico e tantos outros (evolução X criacionismo, conspiracionistas que fazem campanhas contra a vacinação, negadores do holocausto, etc.) não nos mostram que é impossível ser imparcial quando ponderamos a respeito de determinada questão. Afinal, depois de toda a discussão que esses assuntos suscitaram, é possível saber para onde a preponderância das evidências aponta, e assim entender quais são as melhores ideias em cada caso (o AGA tem acontecido; a teoria da evolução biológica abrange o que melhor sabemos a respeito de como a vida evoluiu em nosso planeta; as vacinas funcionam, salvam vidas, e devem ser aplicadas conforme tradicionalmente se recomenda; o holocausto aconteceu, e resultou em milhões de pessoas mortas pelos nazistas). Aceitar a preponderância das evidências, mesmo que elas entrem em conflito com nossa visão de mundo, isso é ser imparcial no sentido apresentado por Siegel. A parcialidade, nesse caso, deve estar atrelada às razões e às evidências. "Se existirem boas razões para se aceitar 'A', mas minha visão de mundo está de acordo com 'B', o que fazer?" Se fortes razões existirem, um sujeito imparcial, fazendo um bom julgamento, deve considerar seriamente abandonar a ideia B em favor de A.
        Reli Lipman e Siegel há pouco tempo e, durante a leitura, refleti sobre a maneira pela qual uma série de debates é feita no Brasil. É muito comum encontrarmos chavões no lugar de ideias. Lugares-comuns abundam por aqui, e uma consulta aos comentários postados por leitores em páginas de notícias, ou em redes sociais, demonstra que as pessoas parecem mais empenhadas em atestar que abraçam determinada causa ou ideia do que propriamente a entendem. Se você solicitar a alguém que explique porque ele imagina que o Brasil está sob ameaça de golpe comunista (como algumas pessoas aparentemente propensas a ideias conspiracionisitas acreditam), dificilmente você receberá um conjunto de boas razões para aceitar essa ideia estranha. Igualmente, é provável que faltem bons argumentos para aqueles que costumam brincar com palavras ou expressões politicamente corretas, mas que não conseguem sustentar as suas ideias depois de uma ou duas perguntas pertinentes.
        Criamos uma cultura na qual uma virtude inquestionável é agarrar-se a alguma ideia e defendê-la a qualquer custo de exame externo – uma cultura que se opõe à defendida por autores como Matthew Lipman, por ser incompatível com o bom pensar. Um sujeito que passa a vida inteira repetindo bordões, mesmo sem ter pensado criticamente a respeito deles, é considerado por muitos como um bom exemplo intelectual. A dúvida, ou mesmo o abandono da crença em determinada ideia, não são virtudes bem cotadas entre nós. O filósofo americano Peter Boghossian, em seu corajoso A manual for creating atheists (Pitchstone Publishing, 2013), escreve a respeito dessa questão com muita propriedade:

“Enquanto sociedade, temos considerado como virtude a importância de se acreditar em alguma coisa e de defender nossas crenças. A frase comum ‘defenda aquilo que você acredita’ tem sido tomada como algo positivo – uma virtude que deveria ser aspirada por todos, e uma deficiência moral se não for seguida.
        Se alguém deveria defender ou não aquilo em que acredita, isso depende exclusivamente em 'o que' esse sujeito acredita, e porque ele acredita nisso. Ter uma firme crença não é uma virtude. Nenhuma inferência moral confiável pode ser feita a respeito de um indivíduo baseado na força de sua convicção.”


        Penso que nós todos deveríamos nos esforçar sinceramente para abrir um espaço importante para o pensamento imparcial, para as boas razões e evidências em nossa maneira de interagir com o mundo e sustentar nossos juízos a respeito de qualquer assunto. Pensar bem não implica defendermos a qualquer custo aquilo em que acreditamos, mas demanda honestidade intelectual suficiente para reavaliarmos nossas posições e ideias com base nas melhores evidências disponíveis, deixando um espaço considerável para a possibilidade de estarmos errados. E, no que diz respeito à possibilidade de alguém estar errado, a honestidade intelectual deveria fazer com que todos nós constantemente nos perguntássemos: que tipo de evidência ou razão eu preciso para concluir que determinada ideia – que eu aceito há algum tempo – não é tão boa quanto eu pensava e que, por isso, eu preciso revisá-la? Se existir alguma evidência ou razão que poderia confrontar nossas crenças, e nós estamos dispostos a analisá-la, então estamos desenvolvendo uma atitude que pode nos afastar de dogmatismos e nos conduzir a um pensar melhor.